Educação à direita e à esquerda

Gilberto Barbosa dos Santos

 

Estamos em plena era do capitalismo! O seu futuro, bem como a eliminação de suas forças produtivas, é mera teoria! O seu passado, os fatos esclarecem, e há uma miríade de trabalhos dando conta de suas possíveis vertentes, como por exemplo, as contribuições do pensador alemão, Max Weber (1864-1920) e do também alemão, Karl Marx (1818-1883). No primeiro, é possível encontrar a gênese de um tipo específico de capitalismo ancorado pela ética racional desenvolvida a partir da Reforma Protestante em 1571. O segundo estrutura suas abordagens levando em conta a Revolução Industrial (1760) e busca na dialética hegeliana o arcabouço metodológico para entender as transformações ocorridas no plano material da existência humana.

Esse é o quadro atual que gera desigualdade por conta das adaptações que os modelos liberais importados da Europa oitocentista adquirem nas chamadas colônias, entre elas, o Brasil que adaptou muito bem o sistema liberal com a escravidão, cujas consequências são sentidas até hoje. Mas se o capitalismo é isso ai – parafraseando palavra-chave usada durante as aulas do professor e sociólogo Octavio Ianni (1926-2004) que assisti nos tempos de IFCH na UNICAMP -, o que pode fazer para suplantá-lo ou torná-lo mais humanizado a ponto de não gerar tantas desigualdades onde se instala, principalmente agora em sua fase financista? Tentar responder essa pergunta é o mote de minha reflexão de hoje, começando pelo campo educacional. Desta forma, um novo questionamento se faz: a educação do presente serve para o futuro, ou seja, será que as práticas deste hoje objetivam forjar o adulto de amanhã?

É interessante notar que o Brasil se encontra em pleno período eleitoral, com debates na televisão, exaustivas matérias em jornais e revistas de circulação nacional, e muitas brigas nas páginas de relacionamento, entretanto, há algo ainda a ser observado. É um tal de Lula Livre, de um lado e, de outro, pela direita brasileira, se defende um postulante que tem claras ligações com um dos períodos mais nefastos da história recente da República brasileira. Até ai, está-se numa democracia e cada um pode defender o que bem entender, entretanto, quando se trata do universo da política, me parece que a coisa muda de situação, pois muitos grupos querem fazer valer seus desejos, contudo, é preciso expor com clareza as opiniões respaldadas em argumentos convincentes e programas de governo e não projetos de poder. Todavia, o que se assiste é truculência de todos os lados, conversas curtas, palavras de ordem e pouco diálogo sobre propostas para colocar a locomotiva brasileira nos trilhos.

Por exemplo, a economia brasileira está um fiasco, ninguém faz movimentos pensando em tirar a máquina nacional do atoleiro em que entrou por conta de um desequilíbrio na balança que tem, de um lado, as visões monetaristas, e de outro o espectro do desenvolvimentismo. Isso significa que há duas abordagens para se pensar a Macroeconomia e a Microeconomia. Todos dizem muitas coisas, contudo, é preciso ir mais longe e indicar uma reforma ampla do Estado a partir das transformações no campo fiscal. Claro que essas duas categorias se forem alteradas, mudará completamente a relação da sociedade com os políticos e o próprio Estado com as mercadorias políticas perdendo grande fatia do mercado eleitoral. Esse buraco iria ser preenchido como, já que está no ethos da sociedade brasileira, esse excesso de dependência do Estado – este grande Leviatã que tem que nutrir seus milhares de filhos, principalmente àqueles do alto da pirâmide social?

Não será estranho se muitos dos que me leem nessa manhã crer que eu esteja propondo o Estado mínimo na economia, bem ao estilo do liberalismo lockeano [John Locke 1632-1794]. Equivocam-se quem enxerga desta maneira. Reorganização do Estado significa torná-lo mais eficiente para atender as demandas efetivas de quem o financia: o povo, independentemente de qual posição social, classe social ou categoria social que este sujeito social ocupar. Entretanto, o que se vê em nosso cotidiano é totalmente diferente, conforme as investigações sobre o universo da corrupção estão revelando, isto é, uma casta de plutocratas em conluio com uma burocracia carcomida pela arrogância, prepotência e com ares aristocráticos. Muitos dos avanços necessários encontram entraves justamente nesses setores, ávidos por se locupletarem com o dinheiro público oriundo dos impostos e tributos pagos diariamente pelo brasileiro. Desta forma, me parece que estabelecer uma reforma, seguida de rígidos critérios de mobilidade dentro da burocracia estatal brasileira, seria mexer num vespeiro. Mas ver-se-á como a coisa deslancha com o andar das campanhas eleitorais.

Outro setor importante que deve ser modificado é o da educação. Mas qual educação o brasileiro quer? Um voltado para o mercado, portanto, mais liberal, sem, no entanto ser de direita? Ou um processo pedagógico alinhado com as práticas chamadas de esquerda? Se eu for pensar como Norberto Bobbio (1909-2004), direita e esquerda não são vistos como valores, mas termos ocos, pois a verdade da questão estaria entre liberdade e igualdade. Mas, fico com a questão de esquerda e direita, porque no Brasil se trata disso, mesmo tendo uma elite atrelada ao patrimonialismo e uma categoria social – não mais classe social conforme Márcio Porchmann – que só consegue existir estando atrelada ao Estado a espera das migalhas que caem do alto do trono. Não preciso nem lembrar quem foi que, de forma romanesca apontou essa questão.

Dito isso, é preciso ter claro que há uma discussão sobre o que a escola deve ensinar ao aluno. Existem as questões de gênero, sexo, sexualidade, religiosidade, entre outras coisas, como por exemplo, um ensino desideologizado. Acho possível tudo isso, desde que a educação em casa seja dada pelos pais e não terceirizada como vem sendo até o momento. Portanto, querer que a escola assuma um papel que não é dela e depois quer doutrina-la, pois é isso que se observa, é uma coisa complexa. Por exemplo, será que as instituições de ensino vão oferecer noção de religião ou religiões e suas religiosidades dentro de um contexto social e histórico? Como falar da civilização egípcia sem deixar de lado a sua religiosidade e traçar paralelos com o cristianismo, religião que deriva do judaísmo, que surgiu entre o povo cananeu? É importante observar ainda que na contemporaneidade a homoafetividade está ai com leis que tornam uniões efetivas. Em virtude disso, vários casais com contratos nupciais estão adotando filhos rejeitados pelos heterossexuais. Desta forma, a educação precisa observar essas questões e os valores morais e éticos para que todos possam viver em liberdade de acordo com as escolhas que fizerem.

Explicar liberdade e seus limites pode ser tarefa da família e também da escola através das leis, regras, sejam elas escritas ou baseadas em costumes herdados dos ancestrais. Inculcados esses princípios de convivência em sociedade será possível compreender, mesmo que não aceitas, as escolhas das pessoas com que se divide o dia a dia escolar. Desta forma, pensar a educação no Brasil é criar condições para que as adversidades e a alteridade possam conviver pacificamente no ambiente institucional.

 

Gilberto Barbosa dos Santos, Sociólogo político, editor do site www.criticapontual.com.br, autor do livro O sentido da República em Esaú e Jacó, de Machado de Assis; professor do ensino superior e médio em Penápolis; pesquisador do Grupo de Pensamento Conservador – UNESP – Araraquara e membro do Conselho Editorial e Científico da revista LEVS (Laboratório de Estudos da Violência e Segurança) – UNESP – Marília; escreve às quintas-feiras neste espaço: e-mail: gildassociais@bol.com.br; gilcriticapontual@gmail.com. www.criticapontual.com.br.

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