A educação brasileira e seus percalços

Gilberto Barbosa dos Santos

 

O segundo semestre letivo de 2018 começou e nada de novo no front pedagógico brasileiro, exceto a BNCC [Base Nacional Comum Curricular], cuja discussão teria que ser feita pelos docentes e pelo alunato no chamado dia D da Educação. Eu poderia ficar dias, semanas debatendo o documento, entretanto, para não cansar em demasia aqueles que se dedicam a leitura das linhas que publico aqui nesta página semanalmente, optei por ir direto à minha visão, mesmo que seja utópica de escola e estrutura pedagógica para um país fragmentado em 27 estados que deveriam ser desconexos e conexos em determinados temas. Sendo assim, acredito que a questão da Base Nacional Comum Curricular não deveria ficar circunscrita aos estudantes, professores e equipe técnica em suas respectivas unidades de ensino, mesmo que estas instituições sejam feitas para os alunos e seus respectivos familiares.

Posto isto, começo as minhas enunciações sobre o universo educacional, que pode no final, ganhar uma cara de visão utópica de mundo, mas, como aponta o sociólogo alemão Karl Mannheim (1893-1947), aquela tese que num determinado momento é adjetivado como utópica, no período seguinte pode ser ideológica e ter seus militantes. Sendo assim, os próximos parágrafos refletirão o anseio de alguém que vive a educação diariamente, compreendendo os motivos que a levaram a falência quase que total. Só não foi a nocaute por conta dos profissionais que lá estão numa espécie de sacerdócio, amor ao ofício e aos alunos que são as verdadeiras vítimas desse estrangulamento educacional que acontece no Brasil desde as últimas décadas. A sociedade do futuro tem desprezo quase abjeto pelo professor e uma ojeriza letal tal que, se um aluno de hoje diga que amanhã será docente, será severamente vilipendiado. Os pais acreditam que é papel do professor fornecer princípios éticos e morais para seus rebentos, muitas vezes vindo ao mundo sem um planejamento familiar e econômico, cabendo ao Estado subsidiá-los até que os filhos atinjam a maioridade civil. Todos são cônscios da participação efetiva desse grande Leviatã abstrato, através de suas instituições psicopedagógicas e dos aparelhos ideológicos.

Segundo o economista norte-americano Milton Friedman (1912-2006), “uma sociedade democrática e estável é impossível sem um grau mínimo de alfabetização e conhecimento por parte da maioria dos cidadãos e sem a ampla aceitação de algum conjunto de valores. A educação pode contribuir para esses dois objetivos. Em consequência, o ganho com a educação de uma criança não é desfrutado apenas pela criança ou por seus pais, mas também pelos outros membros da sociedade. A educação do meu filho contribui para o seu bem-estar em termos de promoção de uma sociedade estável e democrática” (Capitalismo e Liberdade. São Paulo: Abril Cultural, 1984, p. 83-84). Se essa observação de Friedman tem eficácia para o observador educacional, como esse processo pode ser equacionado? Sabe-se que no Brasil, desde a Colônia, educar o povo nunca foi um dos principais objetivos dos governos que aqui se instalaram, seja de que forma for: colonial, regencial, monárquico, republicano, ditatorial, autoritários disfarçado de democratas. Sendo assim, me parece ser complexa a tarefa de se pensar um plano que contemple de maneira equânime todos os grupos e categorias sociais que compõem a Nação de Pindorama.

Entretanto, tudo isso o povo está cansado de saber, mesmo não fazendo nada para mudar o quadro caótico em que a educação se encontra, já que espera vir tudo do alto do trono – só para lembrar insistentemente o capítulo Ideia Fixa, do romance Memórias póstumas de Brás Cubas. Se o cidadão tem conhecimento prévio do descalabro que anda a área, cabe então adotar algumas medidas que poderiam alterar, ou minimizar a problemática envolvendo esse importante setor. O primeiro passo é a adoção do sistema de escola em período integral, desde a creche até o fim do ensino médio. Mas como colocar isso em prática sem os recursos? Mas onde está o dinheiro, se o governo federal arrecada anualmente trilhões de reais junto aos contribuintes? É preciso ter claro que a boca arrecadatória das autoridades brasileiras é enorme, todavia, a devolução desses valores é feita “nas cochas” – para usar uma expressão da patuleia e também pelo alto clero da economia nacional. Muitos dirão que se faz necessária a redução do tamanho do Estado, objetivando uma racionalização nos seus gastos. Até ai me parece interessante a tentação, contudo, reduzir a máquina pública num Estado com 27 unidades territoriais, sem a concretização do pacto federativo, acrescentando ai os interesses coronelísticos das elites locais, parece ser uma tarefa hercúlea, contudo, não é, bastava vontade política dos governantes e isso pode acontecer por intermédio da democracia e projeto sem o verniz da demagogia e do populismo muito em voga hoje.

Sem essa racionalidade no gasto do dinheiro público e burocratas vocacionados como desejava Max Weber (1864-1920), não haverá saída para o Brasil, principalmente porque ainda persiste em seus bastidores, uma plutocracia com ares monárquicos que traga para seus cofres particulares e de seus apaniguados, todos os valores arrecadados junto à população. Esse processo só é possível, em virtude de haver ainda uma burocracia aristocratizada que se apossou dos principais cargos de direção e gerência da máquina pública, passando de geração a geração numa simbiose nefasta para toda sociedade futura. Neste sentido, paga-se três escolas e se entrega uma, como o povão costuma chamar, “meia boca”! O Estado desembolsa o equivalente a mil leitos hospitalares e, depois de muito custo, se chega a uma centena de unidades e dai para adiante. Se eu ficar relacionando aqui, termino o artigo e não conclui o rol de desvios de verbas e recursos para isso e para aquilo, sobrando muito pouco para o básico.

Desta forma, construir escolas de período integral e pagar salários dignos aos profissionais custa muito aos cofres, sobrando pouco para os plutocratas e seus séquitos de burocratas parasitas e sangue sugas da Nação Brasileira. Para os nossos governantes é mais interessante vender, via marketing pago com o dinheiro público, propagandas que dizem uma coisa, mas que vão entregar outra, se é que o consumidor estará preparado para adquirir esse produto na gôndola pedagógica. É só conversar com um adolescente para verificar que ele tem condição de fazer as escolhas entre as áreas propostas pelo governo federal de cima para baixo começando pelo último ciclo do ensino obrigatório. O correto era haver a inversão na aplicação do BNCC, isto é, começar pelos primeiros anos de ensino obrigatório e em escolas integrais com projetos eficientes e não de mera decoreba de conteúdo. Mas o que se tem é o contrário e não é este cronista – será que posso me adjetivar de tal forma? – quem está afirmando, mas o mundo pedagógico que está indicando, principalmente aquele que diz respeito ao universo público. O privado tem outra vertente, entretanto é constantemente combatido, vilipendiado e adjetivado como capitalista e burguês por aqueles que querem um Estado forte na sociedade, cheio de vagas para burocratas, muitas vezes, incompetentes que lá estão por conta da prática do favor que reina nessas paragens desde a época colonial. Sem quebrar esse ranço e vício herdados dos brasis de antanho, não adianta plano de ensino ou outra coisa que seja enviado do alto, sem que a sociedade discuta amplamente os temas ali presentes.

 

Gilberto Barbosa dos Santos, Sociólogo político, editor do site www.criticapontual.com.br, autor do livro O sentido da República em Esaú e Jacó, de Machado de Assis; professor do ensino superior e médio em Penápolis; pesquisador do Grupo de Pensamento Conservador – UNESP – Araraquara e membro do Conselho Editorial e Científico da revista LEVS (Laboratório de Estudos da Violência e Segurança) – UNESP – Marília; escreve às quintas-feiras neste espaço: e-mail: gildassociais@bol.com.br; gilcriticapontual@gmail.com. www.criticapontual.com.br.

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