Jornadas de julho ou quase isso

Gilberto Barbosa dos Santos

 

Não estou muito tentado a escrever algo sobre o qual todos já sabem alguma coisa, desta forma, a leitura se tornará enfadonha não acrescentando nada a quem se predispuser a perder alguns minutos lendo as minhas tentativas de colocar ordem no caos que se avizinha em nosso Brasil. Se a desordem não é externa, pelo menos o objetivo é tentar organizar mentalmente as coisas de modo que me possibilite apresentar aqui e em outros textos que venho confeccionando alguma clareza.

Se o escopo nessa manhã fria de julho é tentar empreender significância nos diversos significativos que surgem a partir de signos e ações dos brasileiros em notoriedade, principalmente no campo da política – ressalta-se aqui que o objetivo não é fazer apologia a qualquer um dos lados da peleja jurídica em tela, mas tão somente tentar compreender o que se passou e quais as finalidades que os agentes pretendiam alcançar com tais medidas. Sendo assim, vou direto ao que me interessa e creio haver interesse significativo daqueles que me acompanham semanalmente ou nem tanto assim, mas de alguma forma percorrem as linhas que se seguem vez ou outra.

Na História sempre há momentos, dias que transformam para sempre o futuro das pessoas, de grupos, de sociedades, países, continentes, enfim, aqueles acontecimentos que fazem com que nada no amanhã será semelhante ao pretérito. Lógico se se pensar como Heráclito de Éfeso, um dos pré-socráticos, que afirmou na Grécia Antiga que o homem não se banhara duas vezes no mesmo rio, porque nem o ser, nem a água são os mesmos do dia anterior, ver-se-á o jogo histórico a partir do textual, entretanto, se se pautar a análise a partir das sociedades tradicionais e sua solidariedade mecânica, conforme nos apresenta Émile Durkheim (1858-1917) em seu clássico A divisão do trabalho social, observa-se como o processo histórico transcorre e no campo metodológico durkheiminiano a história não tem a importância que há nos trabalhos de Karl Marx (1818-1883) e Max Weber (1864-1920).

Para se entender um pouco o pensamento marxiano, deve-se reportar a Hegel [Georg Wilhelm Friedrich Hegel – 1770-1831] que, em seus trabalhos analíticos recupera a observação de Heráclito de Éfeso para dar corpo à dialética e a proposta de que o mundo não é o mesmo, a exemplo do rio, porque há uma mudança constante no existir, todavia, essas alterações ocorrem no plano das ideias. Para Karl Marx, essas transformações não se dão no âmbito do pensamento – inteligível se quisermos analisar sob o prisma de Platão -, mas no mundo material, dai o materialismo dialético. Desta forma, Marx afirmou que o homem faz a sua história, mas não como quer e sim pelas condições materiais determinadas pelo meio em que existe. Eis a História para a teoria marxiana e ela aponta diversos momentos para isso, inclusive a Revolução Industrial.

Outro pensador alemão, Max Weber, também tem na História o fio condutor de suas observações sobre a sociedade moderna e o capitalismo. Do ponto de vista metodológico, o economista trabalha com a construção tipológica para entender como determinados fatos modificaram para sempre o jeito de agir e ser dos indivíduos em diversas sociedades. Entre tantas abordagens que o alemão fez, me deterei aqui dois eventos ocorridos no século XVI: a reforma protestante e no seu oponente, a contrarreforma católica. As tentativas lançadas pela Igreja Católica para não perder fieis às seitas que se constituíram depois da ação de Martinho Lutero (1483-1546), não provocaram mudanças tão significativas quanto o movimento luterano se se levar em conta a construção de um ethos transformador de condutas dos seres humanos. Senão vejamos: na chave weberiana, é a partir da reforma protestante que o homem, que tem a Bíblia como veículo de ligação entre o ser e o Senhor, se modifica, já que abandona a ideia de que o seu destino já estava predestinado e, por conseguinte nas mãos do clero cujos integrantes faziam a religação entre o fiel e Deus, dispensando-o de construir uma fé racionalizada advinda da leitura das Sagradas Escrituras. Sendo assim, o movimento luterano se consubstanciou em elemento fundamental para a educação, pois, sem saber ler, não seria possível interpretar o conteúdo da Bíblia que foi vertida do latim para o germânico justamente por Martinho Lutero que, juntamente com Goethe (Johann Wolfgang von Goethe [1749-1832]) deram um padrão linguístico para a língua alemã.

Além da Revolução Industrial e a Reforma Protestante, destaca-se ainda como acontecimentos extremamente importantes para a História da Humanidade, a Revolução Francesa, o Colonialismo no século XIX e, muito antes disso, o Mercantilismo, a expansão romana e a história do cristianismo – esta sendo marcada pelo sacrífico de Jesus Cristo numa sexta-feira – a maior como diziam os ancestrais – da Antiguidade. Todos esses fatos podem ser examinados sob as diversas perspectivas históricas e metodologias sociológicas, assim como a Noite de São Bartolomeu na França: dois dias do século XVI em que os protestantes foram reprimidos sob o comando dos reis franceses católicos. Posto isso, é preciso dizer que os acontecimentos elencados aqui não seguem datas cronológicas, pois o meu objetivo aqui é somente o de apresentá-los aos meus leitores.

Até aqui apenas apresentei ocorrências fora das cercanias brasileiras – país que tem sua gênese na chegada das naus cabralinas ao Monte Pascoal e a Terra de Pindorama -, mas isso não quer dizer que não haja por aqui elementos que devam ser analisados sob as perspectivas metodológicas durkheiminianas, marxianas e weberianas, entre outras como a Sociologia das Emoções; Sociologia do Conhecimento e o Pensamento Social. Entretanto, a minha inculcação no momento diz respeito aos fatos do último domingo, 08 de julho, quando um trio de deputados petistas tentou, através de um Desembargador de plantão do TRF4 – sediado em Porto Alegre (RS) –, conseguir um habeas corpus para tirar o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) do cárcere onde está por ter sido condenado a 12 anos de prisão por três desembargadores do Tribunal Regional Federal [segunda instância]. Foi um disque-disque, mantenha preso, solta, ordens daqui e dali, para no final, Lula – que não acreditava na possibilidade de ser solto naquele domingo – ficar onde estava, ou seja, no cárcere.

Claro que depois dos devidos esclarecimentos, evidenciou-se que o magistrado plantonista não tinha competência para o que havia decidido e, inclusive que a ação foi pensada pelo trio para provocar o Judiciário e criar um fato político e conteúdo discursivo aos apaniguados e defensores da ideologia lulopetismo, conforme vários cientistas sociais brasileiros adjetivam. E daí? Qual foi o fato novo no processo que condenou Lula? Eis as interpelações! Qual seria o resultado propositivo para a sociedade que desconfia de tudo e de todos quando o assunto é política e aqueles que vivem de, da e para esse ofício? Só o tempo, não muito distante, é quem dirá, todavia, é possível fazer algumas reflexões sobre o fato que já teve suas consequências, como por exemplo, o rechaço que a presidente do STJ (Superior Tribunal de Justiça) fez do pedido de liberdade do ex-presidente.

 

Gilberto Barbosa dos Santos, Sociólogo político, editor do site www.criticapontual.com.br, autor do livro O sentido da República em Esaú e Jacó, de Machado de Assis; professor do ensino superior e médio em Penápolis; pesquisador do Grupo de Pensamento Conservador – UNESP – Araraquara e membro do Conselho Editorial e Científico da revista LEVS (Laboratório de Estudos da Violência e Segurança) – UNESP – Marília; escreve às quintas-feiras neste espaço: e-mail: gildassociais@bol.com.br; gilcriticapontual@gmail.com. www.criticapontual.com.br.

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