Vasculhando memórias

Gilberto Barbosa dos Santos

 

Objetivando conferir velhas anotações com o presente, no último feriado prolongado busquei em minha biblioteca um texto que eu havia analisado nos últimos anos de minha graduação em Ciências Sociais na UNESP-Araraquara. Trata-se do livro O vampiro da razão (The Vampire of reason) – publicado original na Inglaterra em 1989, pelo professor de Filosofia em Londres, Richard James Blackburn e posteriormente vertido para a Língua Portuguesa pelo filósofo e docente da UNESP, Raul Fiker (1947-2017) – meu professor de Filosofia naqueles anos iniciais de graduando em Ciências Sociais na Universidade Estadual Paulista. Mas o que aquelas 336 páginas têm a dizer para os seres humanos e os brasileiros 25 anos depois? Eis a significativa pergunta sobre os caminhos percorridos naqueles tempos e nos atuais.

Eu particularmente gostei da distinção que Blackburn faz dos reinos da necessidade, reinos da liberdade e os modos de segurança e religiosos. Segundo ele, “o reino da liberdade pode lançar de volta o seu próprio feitiço sobre o reino da necessidade numa interação cujo momento decisivo tem ainda que ser estabelecido” (BLACKBURN, Ed. UNESP, 1992, p. 168). Sem mais delongas para não enfadar os meus leitores, acredito que as necessidades do dia a dia faz com que os sujeitos sociais possam repensar a ideia de liberdade, já que como nos aponta Fiódor Dostoievski (1821-1881), o homem social é incapaz de tolerar a sua liberdade e está disposto a trocá-la pelo líder que lhe garante pão e segurança – já tratei dessa temática aqui neste espaço. Se isso é fato, então como conceber a tal da liberdade num mundo governado pelas necessidades de diversas nuanças?

Dentro dessa interpelação e no campo das memórias, sempre me debati com tais problemáticas. O homem tem necessidade de ser livre, mas é preciso conceber essa liberdade a partir de uma perspectiva em que suas necessidades estomacais possam determinar suas escolhas, principalmente no campo da política. E o que se diz então do modo de segurança, cuja ausência tem assombrado diariamente os cidadãos, sejam eles com ou sem cidadanias. Todos querem ter segurança, todavia, como e em que níveis se pensam essa questão no país? As leis vigentes no Brasil garantem ao brasileiro a sensação de estar protegido, seja pelos integrantes dos aparelhos repressivos de Estado (Louis Althusser – [1918-1990]), ou pelas instituições judiciais – guardiães da letra fria da lei?

Junto a essa releitura de O vampiro da razão ocorreu-me um dos capítulos do livro Ideologia e contraideologia: temas e variações (2010), do professor emérito da USP (Universidade de São Paulo) Alfredo Bosi. A obra é significativa para aqueles que objetivam mergulhar no universo filosófico e cientifico narrado por Bosi ou pelos autores que cita, entretanto, para compreender melhor a busca pelas leituras feitas lá nos longínquos anos 90 do século XX e se elas podem me trazer esclarecimentos sobre aquele futuro pensado, ou melhor, inteligível que se fez concreto agora no presente, evidencio o capítulo “Os ídolos de Francis Bacon”. Para quem não sabe, Francis Bacon (1561-1626) foi um pensador, ensaísta inglês considerado como o criador da ciência moderna. Naquela época, a nova ciência experimental buscará “um novo método, que encarece a observação e a indução, e não mais o silogismo escolástico ou a citação dogmática dos autores antigos” (BOSI, Companhia das Letras, 2010, p. 19) e o intelectual em tela, nas palavras do catedrático uspiano, escreve o Novum Organum propondo desmistificar “os enganos e abusos, chamados ‘ídolos’”.

“Os idola levariam a mente a passar de maneira invertida das coisas particulares e sensíveis a ideias vagas, genéricas, que nada descobrem e nada inventam, pairando longe da realidade, isto é, da natureza e dos objetos feitos pelo homem. O verdadeiro conhecimento, ao contrário, nasceria de experiências repetidas e controladas, e os conceitos que assim se induzem retornariam às próprias coisas, servindo para que a humanidade domine a natureza e acresça o seu poder. Saber é poder, diz Bacon, e com essa certeza já acendemos à soleira do pensamento tecnológico da era burguesa, embora a Revolução Industrial deve se esperar quase um século para concretizar-se na Inglaterra” (BOSI, 2010, p. 19).

Significativa essa observação do docente da USP, todavia, o que mais me chamou a atenção, além dessa pequena acepção, ou seja, Saber é poder, é como Bacon classifica os ídolos que, “embora aninhados na mente dos homens, só se entendem se os indivíduos que neles creem forem observados na trama social ou, para dizê-lo com palavras modernas, no interior de suas respectivas culturas” (BOSI, 2010, p. 19). Para o pensador inglês haveria quatro tipos de ídolos: os das tribos; os das cavernas; os do fórum e os do teatro. Antes de, mesmo que forma lacônica externar aqui sinteticamente como Bacon definia seus “ídolos”, é interessante anotar que, para Bosi, “a análise dos motivos das ações humanas vale-se de uma linguagem de desmascaramento” (2010, p. 21).

Posto isso, passo aos ídolos. Ao primeiro, Francis Bacon se refere como sendo “às falsas explicações dos fenômenos naturais, devidas à debilidade dos sentidos quando não retificados pela experiência e pela razão” (BOSI, p. 20). Já o segundo, ou seja, das cavernas, seria “as imagens que recebemos da educação ou de acasos de nossa biografia. Não raro, nós as petrificamos sob a forma de noções fixas, opacas, a ponto de impedir que a luz da natureza nos esclareça e desfaça as generalizações abusivas que delas resultaram. A metáfora da caverna que obscurece o conhecimento do real é de origem platônica” (2010, p. 20)

O terceiro idolatra advém do universo do fórum e diz respeito às “palavras e as expressões que os homens recebem ou veiculam no seu convívio público. O fórum é a praça do comércio, o local das combinações, dos acordos ou litígios que envolvem grande parte dos cidadãos”. E por fim, o mundo do teatro que faz alusão às “doutrinas filosóficas, tantas vezes pejadas de equívocos, fontes de confusões e distorções. O teatro figura o espaço da cultura letrada, o lugar da representação e da cena verbal” (BOSI, 2010, p. 20) – essa última observação de Francis Bacon me faz recordar quando li, pela primeira vez, a obra Elogia da loucura, ensaio escrito em 1509 pelo religioso Erasmo de Roterdã (1466-1536).

E agora, meu caro leitor, Francis Bacon, tinha ou não razão quando, lá na longínqua Europa Seiscentista, esmiuçou o universo dos idólatras? As observações feitas pelo pensador inglês faz qualquer indivíduo, que se queira um ente ou se transformar em tal no âmbito social, pensar, refletir, buscando a construção de um lugar melhor do que este em que se vive atropelando e sendo atropelado pelas vicissitudes existenciais. É isso ai!

 

Gilberto Barbosa dos Santos, Sociólogo político, editor do site www.criticapontual.com.br, autor do livro O sentido da República em Esaú e Jacó, de Machado de Assis; professor do ensino superior e médio em Penápolis; pesquisador do Grupo de Pensamento Conservador – UNESP – Araraquara e membro do Conselho Editorial e Científico da revista LEVS (Laboratório de Estudos da Violência e Segurança) – UNESP – Marília; escreve às quintas-feiras neste espaço: e-mail:gildassociais@bol.com.br; gilcriticapontual@gmail.com. www.criticapontual.com.br.

 

 

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