Desassossegos sociais

Gilberto Barbosa dos Santos

 

Um dia desses, como outro qualquer, exceto pelas baixas temperaturas que chegaram depois de um verão daqueles, como os antigos se expressavam quando queriam se referir ao calor que assola as mais de cinco mil paragens desse país tropical, com governos populistas de todas as estirpes, para não dizer medíocres, passei a me divertir com as páginas que compõem o Livro do Desassossego e confeccionadas por Fernando Pessoa (1888-1935) através de seu semi-heterônimo Bernardo Soares e publicadas lá no longínquo ano de 1913, ou seja, há exatos 105 anos. Até ai nada de mais, pois se trata de mais um livro, cujas páginas me trouxeram momentos riquíssimos de um lazer bem aproveitado, entretanto, um trecho, logo no começo da obra, ficou martelando dentro de minha cabeça, como se diz no jargão popular.

Em determinado momento do enredo, o narrador faz menção a Vasques, seu patrão, o transportando a um futuro não muito distante quando o enunciador estaria, quem sabe, num asilo dedicado aos mendigos e esmoleiros. Ironias a parte, bem a lá Sócrates – filósofo que viveu na Grécia Antiga e criador da Metafísica – é interessante observar que, na escrita, o autor ressalta que estaria junto de outras pessoas que, apesar de terem perdido tudo por isso estarem naquela condição, não perderam seus sonhos – sabe lá com qual intensidade vivem ainda ou o conteúdo desse universo onírico, mas o certo é que o narrador de Fernando Pessoa, nessa obra, estaria junto de outros sujeitos derrotados, porém felizes, quiçá suas perdas por mais substanciais que fossem as posses.

Embora minha leitura ainda esteja no nível do esmalte, para lembrar uma observação do crítico literário Antonio Candido (1918-2017) – que completaria seu centenário no próximo dia 24 de julho – sobre os escritos machadianos, é possível compreender que o objetivo da enunciação lusitana é indicar que a personagem, naquele futuro a que foi alçado por meio da palavra, seja soprada ou grafada, estaria misturada “com a ralé dos que se julgaram gênios – não tem como deixar de lado Quincas Borba [personagem de dois romances machadianos] – e não foram mais que mendigos com sonhos, junto com a massa anônima dos que não tiveram poder para vencer nem renúncia larga para vencer do avesso”.

Deixando o campo esmaltado, seja lá de que tonalidade for, e ingressando no universo da cutícula, tendo em vista que a base usada nas unhas, muitas vezes objetiva esconder as imperfeições ou quase isso, que as mãos e os dedos finos escodem ou não. Se isso é fato, e tendo a crer que sim, pensando nos enredos que Machado de Assis (1839-1908) escreveu escarnecendo da elite brasileira Oitocentista que pretendia ser moderna, mas sustentava um dos sistemas mais perversos de alienação e violência ao ser humano: a exploração da mão de obra alheia mantida em cativeiro como mercadoria que deveria ser explorada até a exaustão física – outro lugar comum em meus textos, entretanto, eu o mantenho em virtude de ainda a sociedade brasileira registrar – o que é de se lamentar – fortes e profundos lampejos de escravidão que, infelizmente não foi extinta naquela manhã de sábado, 13 de maio de 1888, portanto, no mesmo ano em que veio ao mundo o lusitano Fernando Pessoa.

Se havia algum profundo desejo daqueles homens que lutaram, entre eles o advogado Luís Gama (1830-1882), pela liberdade e o advento duma cidadania como consequência da extinção do tronco, ele deve ter sido sepultado no final daquela tarde e não ressuscitou na segunda-feira, como muitos esperavam, já que no dia 15 de maio de 1888 não havia uma massa de africanos alforriados, com empregos ou outros referenciais que pudessem lhes garantir um futuro diferente do passado que os africanos e seus descendentes tentavam esquecer. Aquela segunda-feira chegou e com ela, a certeza de que o amanhã poderia ser mais amargo que a senzala fétida e mais dolorida do que os açoites desferidos por capatazes ávidos por satisfazem suas sanhas violentas nas costas e dorsos daqueles que não tinham direito a nada, exceto trabalhar até morrer, pois as medidas que o trono adotava, por exemplo, como a lei do sexagenário, tinham apenas o escopo de adiar o fim da servidão para longe de ser voluntária, mas forçada a golpes de chicotes.

Será que um dos integrantes daquele asilo lisboeta em que o narrador de Fernando Pessoa foi lançado não seria um desses cativos que almejava a tão sonhada liberdade, conforme José de Alencar (1829-1977) apresenta aos leitores de seu romance O tronco do ipê? Claro que a Lisboa de Fernando Pessoa não era o Rio de Janeiro de Alencar, Machado de Assis, Joaquim Manoel de Macedo (1820-1882) – autor do livro As vítimas algozes -, a São Paulo de Luís Gama e da tradicional Faculdade de Direito São Francisco – USP -, todavia, é possível se pensar nos sanatórios pelos quais o escritor Afonso Henrique de Lima Barreto (1881-1920) – autor de Clara dos Anjos – passou e, com certeza, encontrou com esses descendentes de africanos que para lá foram levados, depois de perambularem a esmo pelas ruas das principais cidades brasileiras, ou nem tanto assim, mas para onde foram em busca da tão prometida liberdade cantada em prosa e verso por muitos poetas defensores da alforria total que confeccionaram estrofes e rimas lembrando a agonia dos africanos, como por exemplo, Antonio Frederico Castro Alves (1847-1871) e seu Navio negreiro.

Mas porque o Brasil não conseguiu, de fato, conceder aos africanos e seus descendentes a liberdade tão acalentada e elemento fundamental das memórias daqueles ex-escravos jogados nas ruas, asilos e outras casas de saúde, cujo objetivo não era recuperar os doentes e alienados após anos a fio de surras e outras sevicias, mas sim o de limpar as praças e os passeios públicos para que o país fosse vendido como o paraíso ilustrado nos escritos de Sergio Buarque de Holanda (1902-1982), principalmente aqueles que compõem a obra Visão do Paraíso. Muito já se disse sobre isso, outros livros, teses, dissertações, monografias foram confeccionadas, sem que a situação se alterasse significativamente. No entanto, de acordo com observações de Florestan Fernandes (1920-1995), ainda é possível, em pleno século XXI, encontrar situações em que o afro-brasileiro para ser aceito, mesmo sendo capaz, tem que passar pelo crivo de um europeu que dirá se este é ou não gabaritado para a faina – mesmo aquela em que se exige mais do intelectual do que o corpanzil, como fora outrora no período escravista.

O Brasil está recheado de exemplo de indivíduos que, capacitados, foram em busca de uma colocação no mercado de trabalho e, mesmo tendo a vaga disponível, escutaram como resposta que a empresa não estava contratando faxineiro (a). O meu caro leitor vai me dizer que a enunciação acima é fruto da imaginação dum esmoleiro que habita um dos asilos frequentados pela personagem principal de O livro do desassossego, ou é parte da realidade nacional, bem como de sujeitos que se sentiram inferiorizados quando obtiveram tais respostas? A temática é alvissareira, creio eu, portanto, deveria voltar a ela num futuro vindouro.

 

Gilberto Barbosa dos Santos, Sociólogo político, editor do site www.criticapontual.com.br, autor do livro O sentido da República em Esaú e Jacó, de Machado de Assis; professor do ensino superior e médio em Penápolis; pesquisador do Grupo de Pensamento Conservador – UNESP – Araraquara e membro do Conselho Editorial e Científico da revista LEVS (Laboratório de Estudos da Violência e Segurança) – UNESP – Marília; escreve às quintas-feiras neste espaço: e-mail:gildassociais@bol.com.br; gilcriticapontual@gmail.com. www.criticapontual.com.br.

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