Ocaso da política nacional

Gilberto Barbosa dos Santos

 

Direto ao ponto: uma sociedade que, politicamente se sente órfão, porque um líder sindicalista e ex-presidente da República cumprirá pena de 12 anos de prisão decretada pela Justiça brasileira, está vivendo o seu ocaso político. A coisa fica mais complicada ainda quando o segundo colocado na última eleição presidencial está todo enrolado com as leis vigentes da Nação, sob a acusação de corrupção e envolvimento em esquemas de propina. Soma-se a isso o fato de um pré-candidato presidencial da legenda que administra o maior estado do país não consegue emplacar nas pesquisas de intenção de voto, esperando sei lá o quê!

Não fosse isso, os demais que colocaram seus nomes à disposição de partidos, nanicos ou de alugueis, também tem lá seus desentendimentos com a legislação ou defendem propostas estapafúrdias, como se o Brasil vivesse uma imensa desordem in institucionais. Sendo assim, antes de prosseguir nas reflexões sobre a problemática envolvendo o universo da política brasileira, fica-me uma interpelação: o que está em desordem a ponto de se retroceder, atendendo ao pedido de milhares de pessoas que ainda não conhecem a cidadania? As instituições funcionam? Ao que tudo leva a crer, sim! O Congresso Nacional não foi fechado, pode não ser aquela maravilha, mas os seus integrantes foram escolhidos democraticamente, mesmo que muitos deles estejam envolvidos em atos delituosos que, caindo o fórum privilegiado, a primeira instância, caso fique comprovada a culpabilidade, há de sentenciá-los.

O Executivo está funcionando? Apesar de muitos asseclas de um tipo de política populista em diversas áreas do existir nacional acharem que não, está ai tentando equacionar e tirar o país de uma profunda recessão que se meteu em virtude de muitos dos brasileiros acreditarem em discursos verborrágicos e outras fanfarronices, como o de um ex-ministro presidencial que afirmou certa vez que o pobre não estava preocupado com questões macro ou microeconômicas, já que só queria saber se a prestação cabia em seu bolso. Consequência: endividamento atroz que travou toda a economia, já que o consumo foi realizado de maneira desenfreada e sem critérios racionais. Quanto aos resultados, todos são cônscios, principalmente aqueles que se deixaram levar pelo canto da sereia entoado por determinados seguidores duma legenda mais interessada em se perpetuar no poder.

E o Judiciário? Ah! Este deixa muitas dúvidas, mais especificamente no campo hermenêutico, ou seja, na área interpretativa do código máximo do Brasil: a Constituição Brasileira. Como se trata de um órgão colegiado, a decisão nem sempre agrada o cidadão comum, mas é preciso compreender que a democracia no Brasil é algo recente e que somente através do voto e do debate consciente e não ideologizado, será possível construir uma Nação em que todos sentirão orgulho de habitar. Um país em que o ser que diverge não sofrerá retaliações como se tem observado no corriqueiro da história nacional, principalmente no campo da política. “Não é meu amigo, tenho divergências ideológicas, por isso não faço uso de seu profissionalismo!” Ainda hoje presencio esse tipo de postura em nossa sociedade, o que evidencia o quão longe se está da democracia e de muito próximos de práticas que mais lembram o universo escravagista com seus capitães-do-mato, chicotes, silenciosos açoites e açoitadores que usam apenas o verbo para agredir, vilipendiar quem pensa diferente.

Parece-me que as três principais instituições, mesmo que não sejam as que o cidadão espera, estão funcionando, entretanto, existem outras que deveriam preparar o indivíduo para o uso correto de sua consciência política, mas muitas delas se encontram jogadas às traças, como por exemplo, a escola brasileira e tudo que diz respeito à educação. É impossível haver instituições sólidas se a população se quer saiba ler e escrever, quiçá interpretar os fatos não a partir deles mesmos, mas através duma “conexão de sentido” em que o dado a ser analisado tem lá suas ramificações com um pretérito não muito longínquo, ou mesmo, lá dos tempos coloniais ou, como diziam os antigos “de antanho”. A partir dessa perspectiva, é possível especular sobre o ontem como elemento significativo para a produção de sentido e significado para um amanhã ainda inexistente. Desta forma, observa-se que a meritocracia ainda engatinha nesse país, o que dificulta a implantação de uma sociedade em que o liberalismo se instale de fato ou outra forma de organização produtiva. A herança senzaleira veta esse tipo de modelo econômico, prevalecendo o “favor”, a canetada e o sobrenome como se este adjetivasse a capacidade e competências profissionais.

Se não existe de fato uma sociedade escudada num modelo econômico que esteja à altura da sociedade, resta apenas o patrimonialismo, conforme já apresentado por vários cientistas sociais brasileiros, entre eles Florestan Fernandes (1920-1995), Sérgio Buarque de Holanda (1902-1982); Raymundo Faoro (1925-2003), Octavio Ianni (1926-2004) e Antonio Candido (1918-2017). Este, o patrimonialismo, como dizia um dos narradores machadianos, vai bem e dando as cartas no jogo político em pleno Terceiro Milênio. Soma-se a essa conduta, a plutocrata atrelada simbioticamente a uma burocracia aristocratizada que ainda reina nessa terra de Machado de Assis (1839-1908), segundo já nos alertava o escritor José de Alencar (1829-1877) em vários de seus escritos. Parece-me que o indivíduo que se ocupa em pensar o Brasil já sabe tudo isso, portanto, o que este precisa para o momento é a indicação de uma saída para que a Nação escape dessa masmorra que se meteu por conta de práticas populistas e a manutenção de procedimentos que nos reportam a José Dias, personagem de Dom Casmurro, – significativa enunciação machadiana -, isto é, a vivência do “favor” e da cultura bacharelesca, desde que o ser diplomado pertença a notáveis famílias, a exemplo do que acontecia nos tempos da empobrecida nobiliarquia lisboeta: foram-se os condes, duques, marqueses, viscondes, ficaram os hábitos que estão corroendo este país de dentro para fora, como naquela ilha do romance O dia do coringa, do filósofo norueguês Josten Garden.

Todavia, enquanto não se desata o nó que liga o presente, que se quer ser moderno, a um passado arcaico, atrasado, se verificará possantes carros andando pelas ruas da cidade, conduzidos por motoristas que não sabem um quantum se quer de comportamentos éticos e morais. Se se são desprovidos dessas práticas, como quererão que seus filhos sejam cidadãos cônscios das condutas que devem ter em sociedade, visando sempre o melhor do bem comum por intermédio de uma conduta racional visando um fim? Eis a pergunta que, caso seja possível, penso em responder num momento apropriado. É isso ai!

 

Gilberto Barbosa dos Santos, Sociólogo político, editor do site www.criticapontual.com.br, autor do livro O sentido da República em Esaú e Jacó, de Machado de Assis; professor do ensino superior e médio em Penápolis; pesquisador do Grupo de Pensamento Conservador – UNESP – Araraquara e membro do Conselho Editorial e Científico da revista LEVS (Laboratório de Estudos da Violência e Segurança) – UNESP – Marília; escreve às quintas-feiras neste espaço: e-mail:gildassociais@bol.com.br; gilcriticapontual@gmail.com. www.criticapontual.com.br.

 

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