O real ficcional

Gilberto Barbosa dos Santos

 

Um dia desses, em que o indivíduo pode se dar ao prazer de campear dentro de suas memórias e neurônios, algo para fazer ou com que pensar, ou, quem sabe, ocupar o seu vazio existencial, fui reler alguns escritos de pensadores que foram meio que alijados de um quantum significativo de profissionais que se ocupam em pensar a sociedade e a existência social de seus pares. Claro que a minha escolha não foi aleatória, através de uma roleta ou um jogar de dados apostando num número que pudesse corresponder à determinada obra em minha singela biblioteca. Optei pela narrativa do pensador austríaco Friedrich von Augustin Hayek (1899-1992), mais especificamente sobre enunciação que aborda questões alusivas ao universo do socialismo.

No capítulo Entre o instinto e a razão, eis que me deparo com uma citação de Marco Túlio Cícero (106 a.C.-43 a.C.), autor de significativos enredos, entre eles, Da República, que tem, entre as personagens, Lélio – Machado de Assis o recupera através de seus textos jornalísticos intitulados Crônicas de Lélio. A frase, que estampa a unidade do livro que reli naquela tarde, diz o seguinte: Consuetudo est quase altera natura [O costume é uma segunda natureza]. Seguindo a esta, me deparei com uma segunda, desta vez do pensador e humanista francês, Michel Eyquem de Montaigne (1533-1592), segundo a qual Les lois de la conscience que nous dison naitre de la nature, naissant de la costume [As leis da consciência que dizemos que nascem da natureza, nascem dos costumes]. E daí? Deve-se estar perguntando os meus leitores ou talvez um ou dois que se predispõe semanalmente a acompanhar as linhas que publico aqui nesta página.

Claro que nesta sociedade, ninguém faz nada ao acaso ou a esmo, mas sim objetivando atingir um fim específico, conforme Max Weber (1864-1920) nos aponta em suas observações sobre ação social visando um fim determinado, ou seja, uma ação racional desenvolvida a partir de uma conexão de sentido específica. Sendo assim, recorri novamente a um conto machadiano, no qual o cronista carioca diz que antes do povo brasileiro desejar alterar as leis, é preciso que este mude os costumes. Já escrevi sobre essa observação outras tantas vezes que o meu leitor já o sabe de trás para frente e vice-versa, como se diz no jargão popular. Portanto, se não quiser continuar a jornada pelo meu labirinto textual, pode abater o Minotauro agora e dispensar as glórias conquistadas por Teseu quando entrou e saiu do casulo do monstro, construído por Dédalo lá na Grécia Antiga, mais especificamente na Ilha do rei Minos. Tudo bem! Resolveu ir mais além? Se a resposta for positiva, então avançarei na reflexão para que as minhas enunciações não sejam tão enfadonhas nesta manhã que promete ser fria, mesmo porque, ao que tudo indica, estamos num verão outonal.

Deixando a esferas ficcional e mitológica para outra ocasião, é preciso aproximar essas enunciações do momento singular que o país está vivendo, principalmente no âmbito da política. Numa das crônicas que o literato brasileiro publicou sob o rótulo de Lélio, encontramos uma enunciação dando conta de uma festa beneficente promovida pelo Imperador D. Pedro II e sua Corte. A festiva acontece na Quinta da Boa Vista – uma das residências da realeza – e em seu final, haverá um leilão para arrecadar fundos para uma entidade de caridade. Por se tratar de um evento promovido pelo Império, as prendas serão generosas, fazendo a felicidade dos compradores. Todavia, jocosamente, o narrador anuncia como leiloeiro um cidadão de nome significativo: Augusto República. Como já tive a oportunidade de escrever sobre isso numa revista de Ciências Sociais da UFMS (Universidade Federal do Mato Grosso do Sul) – Composição, o nome do pregoeiro é sugestivo, já que Augusto significa magnânimo e república, todos já sabem, portanto, a enunciação está afirmando que a República surge das entranhas da Monarquia, numa análise que pode reportar o leitor curioso, às interpretações criadas por Karl Marx (1818-1883) sobre a sucessão dos modos de produção, segundo as quais, o sistema econômico que irá substituir o anterior é filho do seu antecessor.

O interessante a notar nessa minha reflexão é o fato de que, tempos depois, no plano concreto, a Monarquia foi solapada de um golpe de espadas, dando lugar a uma República, entretanto, alterado o regime, conforme o próprio Machado de Assis viria apresentar de forma ficcional em penúltimo romance Esaú e Jacó (1904), o novo sistema político não alterou os costumes, principalmente aqueles em que uma classe de plutocratas, associada e auxiliada por uma burocracia aristocratizada, tomava de assalto diariamente os cofres públicos em busca de benefícios para os seus manipuladores. Essas denúncias foram feitas pelo político também escritor, José Martiniano de Alencar (1829-1877) em vários de seus escritos, tais como Cartas de Erasmo ao Imperador – aos interessados vale a pena percorrer as mais de 300 páginas que compõem o libelo histórico-político e social da sociedade brasileira oitocentista. Bom! Se a República substituiu apenas, do ponto de vista jurídico, a Corte Imperial, o que foi legado às gerações futuras daquele período? Isso que o brasileiro vem assistindo em seu cotidiano, incrédulo, porém, acreditando se tratar de uma parada militar, ou melhor, um desfile em que os galardões e pompas são apresentados em fantasmagóricos carros-alegóricos depois de exibições de operas bufa, na qual o bobo da corte é o cidadão sem consciência política, contudo, com uma capacidade inesgotável de aplaudir aquele que lhe surrupia suas reservas para um amanhã diferente do presente em que está vivendo.

Todavia, pularei essas observações, afinal, todos já sabem, então porque perder tempo com escritas desta envergadura. Melhor ter publicado uma crônica ou um mísero conto em que as personagens terminam bem e os vilões serão punidos severamente, conforme é previsto em diversos códigos canônicos [codex luris canonici]. Entretanto, se eu fizesse isso, seria apenas na condição de um ficcionista. Como ainda não tenho essa verve, vai mesmo um texto que aborda o lado real da existência, aquele em que os políticos se comprazem e se enriquecem com o dinheiro público, mas que, após 48 meses ocupando cargo eletivo, sob as bênçãos de Prometeu – anti-herói mitológico -, consegue ficar mais quatro anos ludibriando o brasileiro sem um mínimo de educação política, portanto, um não povo, na medida em que, sabe-se da existência de direitos e leis, porém, seus legados sempre favorecem aqueles que estão no poder, justamente porque contaram com a anuência dos eleitores desavisados e despolitizados. Isso é real, o mais, é ficção que poderia deixar de sê-lo se assim o brasileiro quisesse, entretanto, este resolveu calar-se a espera de um herói que não seja um quixotesco e macunaímico.

 

Gilberto Barbosa dos Santos, Sociólogo político, editor do site www.criticapontual.com.br, autor do livro O sentido da República em Esaú e Jacó, de Machado de Assis; professor do ensino superior e médio em Penápolis; pesquisador do Grupo de Pensamento Conservador – UNESP – Araraquara e membro do Conselho Editorial e Científico da revista LEVS (Laboratório de Estudos da Violência e Segurança) – UNESP – Marília; escreve às quintas-feiras neste espaço: e-mail:gildassociais@bol.com.br; gilcriticapontual@gmail.com. www.criticapontual.com.br.

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