Ainda a educação

Gilberto Barbosa dos Santos

 

Não tenho por hábito enfocar em meus escritos semanais aqui nesta página, reflexões de outros colunistas e articulistas, todavia, no meu texto desta quinta-feira, abrirei uma exceção por conta do conteúdo a ser abordado, isto é, a narrativa que corporifica o artigo A batalha recomeçou, publicada no último domingo, 11 de fevereiro, pelo administrador de empresas, Olmair Perez Rillo. O conteúdo diz, em linhas gerais, respeito ao meu ofício que, para muitos dos meus pares, mais se assemelha ao sacerdócio, tamanho o descaso que a sociedade devota aos seus praticantes: estou falando dos professores, educadores, e outros profissionais que formam as equipes pedagógicas das mais diversas instituições de ensino deste país, mais especificamente, das escolas públicas – tão vilipendiada por alunos e pais que veem em seus muros e salas, locais para deixarem seus filhos sem um quantum sequer de valores éticos e morais.

Como é de conhecimento de todos, mais um ano letivo começou e sem os tais lenitivos prometidos pelos governadores estaduais, contudo, com propostas mirabolantes de secretários e demais assessores que nunca pisaram numa sala de aula e, no que diz respeito à educação, sabem apenas um quantum ínfimo do que pensam os teóricos de gabinetes espalhados por esse país com alta desigualdade social, cujo fim não acontecerá com políticas assistencialistas como temos visto desde o limiar deste século. Embora estejamos em pleno Terceiro Milênio, o que se pode dizer é que essa área, imprescindível para a construção de uma nação de fato, continua idêntica às do Brasil Oitocentista, ou seja, excludente e pouco emancipacionista, quiçá as diretrizes pedagógicas e artigos e mais incisos contidos no Estatuto da Criança e do Adolescente.

Quem percorre as séries que compõem o segundo ciclo do ensino fundamental, isto é, 6.ºs anos até a última série do ensino fundamental têm uma noção clara que a educação brasileira está manquitola. E olha que existem profissionais da área, que militam há mais tempo do que este que vós escreve, caros leitores, que afirmam, com convicção, que a educação brasileira está falida e não tem condições de formar cidadãos para o mundo global, apenas para o quintal dos chamados países em desenvolvimento. Até ai tudo certo, mas o que fazer diante de tal constatação? A interpelação tem fulcro no fato de que se está iniciando mais um ano letivo e as perspectivas são as mesmas: salas de aula lotadas, estudantes sem o mínimo de interesse pelo conteúdo que será ministrado durante os 200 dias letivos de 2018. Com raras exceções, encontramos discentes preocupados com o amanhã, portanto, participam ativamente das atividades propostas pelos docentes, além de dar a devida atenção aos enunciados, compartilhando com os professores desejos de um amanhã diferente do que seus presentes: acalentam o sonho de fazer um curso superior e de preferência numa universidade pública. Mas como passar pela barreira seletiva dos concorridos vestibulares?

Conforme já aventei aqui várias vezes, meu caro Olmair Rillo, infelizmente a sociedade está de costa para as escolas e, por conseguinte, a área educacional não é encarada como prioridade pelas autoridades públicas eleitas pelo voto direito. Portanto, apenas culpá-las é retirar dos ombros dos eleitores suas parcelas de culpas e, olha que são grandes as irresponsabilidades de um povo despolitizado, sem um mínimo de educação, órfão dos valores éticos e morais. Sendo assim, se o indivíduo individualizado, aquele que adentra as salas de aulas das mais diversas escolas públicas do Brasil, não tem a menor noção do que significa viver em sociedade, pois a cada gesto seu, por mais isolado que possa indicar, sempre afeta o seu semelhante que deposita diariamente suas esperanças, segundo as quais, ao final do ciclo secundarista conseguirá dar o passo seguinte, qual seja, o de ingressar no ensino superior, pois é cônscio das exigências do mercado de trabalho. Todavia, onde se aprende a respeitar o outro? Na rua, na escola? Quem disse a segunda ou escolheu a primeira, errou, já que o principal espaço para se tornar um ser sociável, ou seja, receber as primeiras noções para vir a ser um indivíduo consciente de seus atributos, direitos e deveres para com o mundo que o cerca, é a própria casa, através do processo designado pelos cientistas sociais como socialização primária. É durante esse período que a criança recebe e reproduz os principais valores relativos ao universo da ética e da moral.

Se se é para se pensar uma saída, ou várias delas, para o campo educacional, é necessário que os profissionais desta significativa área contem com o apoio incondicional dos pais e desta forma, quem sabe, não se ouvirá mais a famigerada pergunta: “professor, o senhor só dá aulas ou trabalha também?” Quem nunca ouviu essa pergunta dentro de sala de aula na contemporaneidade, levanta a mão! Não precisa nem responder, pois tal interpelação é uma enorme ofensa àquele que passou anos a fio, estudando, pesquisando, se debruçando sobre quantidade infindável de livros, para transmitir um mínimo de conhecimento àquele que se dirigiu à escola para aprender e lhe fez tão indecoroso questionamento!

Em tempos bicudos, uma charge que perambula pelas páginas de relacionamentos sociais na internet, dá bem conta do que significa ser professor. Para quem não conhece a imagem, ela diz tudo, já que retrata um docente sendo puxado pela sua mãe para ir dar aulas. Ironias a parte, o que poderia se pensar, seria um estudante recusando, depois das férias de final de ano, voltar aos bancos escolares, todavia, tristemente, é um docente que não quer dar aulas. Por que será? O estudante sem saber um mínimo necessário para a série que está, acha-se no direito de se dirigir ao mestre com empáfia, arrogância e prepotência, se recusando a desenvolver uma pequena atividade, pois o seu interesse é usar a sala de aula como se estivesse numa praça pública. Ao ser cobrado pela conduta não adequada, crê ter sido ofendido pelo docente e, tende a inverter os papéis, dizendo-se ter sido maltratado pelo professor. Esse cenário é corriqueiro na maioria das instituições públicas de ensino do Brasil e a mídia tem constantemente reproduzido materiais e imagens indicando que o meu enunciado não está equivocado.

Retomando o artigo de Olmar Rillo, encontra-se ali a ideia de que a escola pública terá que repensar o seu papel na sociedade. Até ai tudo bem, entretanto, quem irá pensá-la? Os governadores e seus asseclas? Prefeitos e vereadores que estão mais interessados na próxima eleição – basta arrumar uma vaga na creche para os rebentos de seus séquitos que tudo está certo? As autoridades pedagógicas, encabeçados por aqueles que nunca pisaram numa sala de aula? Pela própria sociedade, desprovida de um mínimo de cidadania e refém de políticos corruptos, como se tem visto nos últimos tempos? Responder a essas perguntas, me parece não ser tarefa fácil, já que a tendência é culpar, para não dizer, a satanização do outro, num círculo vicioso e, enquanto isso, nós, os professores, vamos para mais um ano letivo, torcendo para que este não seja um calvário semelhante ao ano passado. Mas, de qualquer forma, a reflexão de Olmair Rillo é significativa para se pensar a problemática da educação brasileira.

 

Gilberto Barbosa dos Santos, Sociólogo político, editor do site www.criticapontual.com.br, autor do livro O sentido da República em Esaú e Jacó, de Machado de Assis; professor do ensino superior e médio em Penápolis; pesquisador do Grupo de Pensamento Conservador – UNESP – Araraquara e membro do Conselho Editorial e Científico da revista LEVS (Laboratório de Estudos da Violência e Segurança) – UNESP – Marília; escreve às quintas-feiras neste espaço: e-mail:gildassociais@bol.com.br; gilcriticapontual@gmail.com. www.criticapontual.com.br.

 

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