Finalmente o ano começa

Gilberto Barbosa dos Santos

 

Quereria eu poder escrever algumas mal traçadas linhas sobre a sentença aplicada pelo TRF4 ao ex-presidente [que lamentavelmente é chamado de presidente por vários de seus asseclas], Luiz Inácio Lula da Silva, o arauto do petismo nacional. Entretanto, como o assunto é de conhecimento de todos, não adentrarei a esse universo para não tornar o meu texto enfadonho, principalmente para aqueles que se enveredam diariamente pelas narrativas que publico aqui no INTERIOR. Se a temática não diz respeito ao mundo da política nacional e do chororô que se transformou a ampliação da pena aplicada ao homem forte do Partido dos Trabalhadores, então qual seria o tema que poderia encantar vocês que me leem nessa manhã de quinta-feira?

Quem sabe um enredo, cuja enunciação poderia apresentar a solução para esse país de fortes heranças senzaleiras e com enormes vínculos com um liberalismo às avessas, quando se pensa a pátria dessa estrutura de poder? Acho que escrever sobre o cativeiro que o africano foi sujeitado por mais de três séculos e ainda permanece atrelado aos grilhões escravagistas, é tão enfadonho quanto discorrer sobre a segunda condenação de Lula e a grita quase que geral do lulopetismo brasileiro porque o político caiu nas malhas da lei que sancionou tempos atrás objetivando fazer proselitismo com aquele código. Se não vou tratar dessas escaramuças políticas no plano nacional, então por que – deve-se estar perguntando o caro leitor – intitulei a reflexão de hoje com tal designação?

Outro dia escrevi sobre o período do entre festas, entretanto, ainda nos encontramos nele, portanto, o ano ainda não começou, já que se espera pela Páscoa que pode significar ressurreição e se isso é fato, significa uma nova existência. Desta forma, o Brasil ainda não ressurgiu das cinzas da corrupção. Sendo assim, arde no Inferno cantado pelo poeta florentino Dante Alighieri (1265-1321) esperando que o purgatório seja mais ameno. Mas quem será o Dom Quixote pós-moderno que conseguirá reverter esse quadro dantesco em que vive a sociedade brasileira? Existem aqueles que, afoitos ou integrantes das chamadas pequenas-burguesias como apontou o cientista político Francisco Weffort em seu clássico O populismo na politica brasileira (Paz & Terra, Rio de Janeiro, 2003, p. 36-37), quererá um ser milagroso que de jeito no descalabro que grassa essa sociedade desde que a família Real aportou por aqui em 1808. É interessante notar que nesse desejo não se observa um quantum, se quer, de solidariedade, ou um princípio ético e moral que pudesse levar o Brasil a uma existência diferente deste que ai está.

Se isso é fato e, tendo a concordar com isso, então não há o que comemorar com o início deste ano, pois tudo será como dantes, a não ser pela confirmação da sentença do petismo nacional na figura do seu mito máximo, o ex-metalúrgico que chegou a presidir uma pátria republicana, todavia, mergulhada até o pescoço em escaramuças alicerçadas pela simbiose entre a plutocracia e a burocracia aristocratizada – já tratei deste assunto em outro momento. Depois da dosimetria jurídica, corre um zum-zum, uma grita geral pelos asseclas do lulopetismo dando conta de que não vão aceitar o veredicto dos magistrados; outros mais exaltados chegaram a propor desobediência civil, como se a pena ampliada contra Lula fosse algo que afetaria toda a sociedade. Claro que não! O apenamento diz respeito somente ao criador do PT e a mais ninguém, portanto, quando seus seguidores esbravejam palavras de ordem sobre isso e aquilo, é preciso que toda a sociedade preste atenção e não apenas releguem essas vociferações aos ostracismos de quem as proferem.

É preciso observar com muita acuidade, não porque se deve dar mais valor do que a sua própria sonoridade, mas sim, em virtude de quem as proferem. Dois Senadores da República, um é líder do PT no Senado e o outro preside a legenda: será que num país sério, esta dupla não estaria em maus lençóis, ou como se diz no jargão popular, sob as garras da letra fria da lei? No entanto, ai entra o tal do foro privilegiado com o qual a ex-presidente Dilma Rousseff (PT) tentou presentear o agora duplamente sentenciado Lula. Essa manobra entrou para o recente histórico político deste país, culminando com o impeachment da “Mãe do PAC”, provocando ojeriza em muitos dos seus correligionários que apontam até hoje tratar-se de um golpe. Imagine que, de fato tenha sido um “golpe”, como todos eles gostam de dizer, mas praticado por quem? Pelos inimigos dum certo tipo de governança? Pelos amigos que estavam próximos e se fez parceria por vários anos, visando a perpetuação no poder? Lembremos apenas de um imbróglio envolvendo o ex-presidente José Sarney (MDB) quando este ocupava uma vaga no Senado Federal e corria o risco de ser deposto. Determinado político, integrante da cúpula do seu partido, mandou que segurassem as rédeas e não permitissem que o emedebista fosse nocauteado, mesmo porque, como dizia este político messiânico de alta plumagem: “é preciso respeitar a bibliografia do homem!” Deu no que deu: o seu partido foi golpeado, a exemplo do que aconteceu com o imperador romano Júlio César estocado pelo seu filho adotivo Marcus Brutus – a ação gerou essa reação de Júlio César “até tu, Brutus, filho meu”.

Como podem ver, meus caros leitores, 2018 começou a todo vapor e como me disse um interlocutor, será um ano complexo em virtude das eleições presidenciais e, antes delas, as alçadas superiores da Justiça brasileira, seja na esfera criminal, civil ou eleitoral, serão acionadas para garantir isso e aquilo, inclusive para se discutir o alcance de uma lei sancionada pelo ex-presidente que está impedido de disputar a sucessão do atual mandatário Michel Temer (MDB) – sobre este aqui há uma miríade de denúncias, todavia se apegou à Constituição e ao servilismo dos representantes da coletividade no congresso nacional para manter-se no cargo até 31 de dezembro deste ano. Até ai tudo normal – mesmo porque a Constituição Federal prevê isso -, caso esse sujeito não estivesse ventilando a possibilidade de disputar a própria sucessão e para acalentar tal desejo, diz ter como trunfo, a famigerada reforma da Previdência que atingirá somente os mais desafortunados da sociedade brasileira – só por isso, o seu percentual de reprova é altíssimo. Os cidadãos podem ter lhe dado uma trégua até 31 de dezembro, mas isso não quer dizer que possa ter o rompante de se achar pré-candidato a alguma coisa. Talvez venha a ser investigado depois que deixar o trono republicano nacional. Diante do exposto, só tem um jeito de equacionar tudo isso: adquirindo consciência política e não politicagem e profissão de fé, mas tão somente o desejo de se fazer esse país forte, sem, no entanto, se apelar para figuras messiânicas que se dizem porta-vozes da ordem e do progresso.

 

Gilberto Barbosa dos Santos, Sociólogo político, editor do site www.criticapontual.com.br, autor do livro O sentido da República em Esaú e Jacó, de Machado de Assis; professor do ensino superior e médio em Penápolis; pesquisador do Grupo de Pensamento Conservador – UNESP – Araraquara e membro do Conselho Editorial e Científico da revista LEVS (Laboratório de Estudos da Violência e Segurança) – UNESP – Marília; escreve às quintas-feiras neste espaço: e-mail:gildassociais@bol.com.br; gilcriticapontual@gmail.com. www.criticapontual.com.br.

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