A miséria dos “miseráveis”

Gilberto Barbosa dos Santos

 

“Enquanto, por efeito de leis e costumes, houver proscrição social, forçando a existência, em plena civilização, de verdadeiros infernos, e desvirtuando, por humana fatalidade, um destino por natureza divino; enquanto os três problemas do século [Oitocentista] a degradação do homem pelo proletariado, a prostituição da mulher pela fome, e a atrofia da criança pela ignorância – não forem resolvidos; enquanto houver lugares onde seja possível a asfixia social; em outras palavras, e de um ponto de vista mais amplo ainda, enquanto sobre a terra houver ignorância e miséria, livros como este não serão inúteis” (Victor Hugo).

A citação acima é o prefácio do clássico Os miseráveis, do escritor realista francês Victor Hugo (1802-1885) e datada de 1862. Para quem não sabe, percorri as páginas desse singular romance uma dezena de vezes e devo fazê-lo novamente agora nas férias de final de ano e, motivado por ainda lamentavelmente ver, em pleno século XXI, situações abjetas que me fazem reportar às páginas lidas, pela primeira vez, há quase três décadas, que, entre encantamento e preocupação, povoou meus pensamentos, justamente por observar que os escritos do realista francês oitocentista não estavam tão longe da minha existência. Contudo, passado todo esse tempo, ou seja, mais de um quarto de século desde a primeira experiência com esta enunciação, fico indignado por ainda presenciar comportamentos que Victor Hugo denunciava na França pós-napoleônica.

Acho que não preciso elencar aqui fatos e discorrer sobre comportamentos mundanos que me levam a acreditar que a maior miséria do ser humano não é a fome, que incomoda diariamente o seu estômago, mas aquela em que o sujeito social tende a classificar o outro por meio de crenças, ideologias, etnias e se indignem meus caros leitores, pelo saldo da conta bancária e pelo adjetivo aferido pelo credo familiar. Traduzindo em outras palavras, pelo nefasto, conforme o antropólogo carioca, Roberto da Matta enfatiza: “sabe com quem está falando?”. Esse é a famigerada observação ou, se preferirem, a famosa carteirada que nenhuma tecnologia ou língua estrangeira ainda conseguiu eliminar da práxis cotidiana deste país que tem fortes laços, para não dizer, um nó górdio que o ata ao seu passado senzaleiro e escravocrata, demonstrando que o ato da regente Princesa Isabel (1846-1921) não libertou o africano e nem o seu algoz, o escravagista europeu. Então, por ter sido um ato que veio do alto do trono, da realeza brasileira, adormeceu em sua publicação naquela manhã daquele sábado, 13 de maio de 1888.

Todos, a partir daquele dia, eram portadores do direito civil – aquele que garante ao sujeito ou cidadão o direito de ir e vir. Até ai todos já sabem, então posso ir direto ao ponto, eliminando a necessidade de ficar esmiuçando a liberdade que não foi bem uma libertação, mas sim uma prisão diferenciada, na medida em que alforriou os cativos, porém, não o tirou da condição que o fizeram ser escravos em terras distantes: a ideia de que eram inferiores aos brancos e por isso, deveriam ser mantidos como bestas e asnos para o trabalho e quando a recusa ocorresse: açoite neles, sem dó nem piedade: golpes desferidos por capitães do mato ávido pelo desejo torpe de ver sofrer um seu semelhante a partir dos sons de suas chibatas. Foram-se os chicotes, os capitães do mato, contudo permaneceram as cusparadas, as desclassificações, os descréditos, os desdéns e outros etnocentrismos que ainda permanecem, numa espécie de inconsciente coletivo da população brasileira. Essa abordagem foi muito bem observada por vários cientistas sociais como, por exemplo, Florestan Fernandes (1920-1995) para quem, toda vez que um afro-brasileiro fizesse algo, por mais significativo que fosse, teria que passar pelo crivo do branco – como se este fosse habilitado para julgar o trabalho, a ação e a atitude de um descendente de africano, eis a presença do capitalismo senzaleiro.

Desta forma, retomando o clássico victorhuguiano, a miséria está onde mesmo? Na barriga vazia? Na mesa de uma família pobre que assiste seus membros se prostituírem diariamente no afã de que no final do dia possam estancar o vácuo estomacal que os assombra há várias semanas? Em nosso legislativo? Na categoria política que só existe pela anuência de uma massa ávida por pão e circo? Será que a miséria se encontra nos títulos honoríficos e nobiliárquicos que, desde a Monarquia, encanta a mente dos incautos brasileiros? Foi-se se a Coroa luso-brasileira restou o gesto e a prática do beija-mão. Mas, e ai, o que fazer? É meus caros leitores, ao que tudo indica, formulei uma dezena de interpelações para a manhã desta quinta-feira, a última antes do aniversariante adentrar as casas e cear com aqueles que batem no peito com arrogância afirmando-se cristãos, mas no dia seguinte, estão lá destilando seus venenos e estalando seus chicotes abstratos, mercadológicos recheados de adjetivos maléficos sobre o dorso daqueles que lhe pediu pão na noite anterior, mas o alimento lhe foi negado. Mesas repletas de comidas, bebidas das mais caras, presentes finos e substantivados pelo valor das mercadorias, mas o coração está repleto do que mesmo? Ferrugem e miséria!

Bom! Sem querer me alongar mais ou azedar os festejos dos meus leitores que me acompanharam durante esse 2017, vou direto ao ponto, conforme Victor Hugo nos alerta em suas narrativas, entre elas Os trabalhadores do Mar e Nossa Senhora de Paris, que o desejo pela luz não cegue os olhos daqueles que poderiam fazer diferente, mas não o fazem, sempre outorgando para o outro a tarefa que lhe cabe que é a de buscar mudanças significativas no mundo que ajuda a construir diariamente, seja engraxando sapatos, comercializando picolés, vendendo apólices de seguros, ajudando alunos a transformarem informações em conhecimentos. Posto isto, é significativo observar que não se deve deixar para a próxima aurora o que se pode fazer hoje, ou seja, ser diferente e mudar a existência de si e do seu entorno. Não é muito trabalhoso, todavia, se desfazer de manias, vícios herdados ou adquiridos no transcorrer dessa jornada a partir de bajuladores, me parece ser a tarefa mais complicada para o momento. Talvez por isso, conforme Victor Hugo, ainda é preciso escrever, dizer, apontar, se indignar, se revoltar quando presenciamos injustiças, por menores que sejam, já que elas aniquilam os desejos de muitos de verem e trabalharem para um mundo melhor. Bom Natalício aos meus leitores semanais.

 

Gilberto Barbosa dos Santos, Sociólogo/Cientista Político, editor do site www.criticapontual.com.br, professor no ensino superior e médio em Penápolis; pesquisador do Grupo Pensamento Conservador – UNESP e membro do Conselho Editorial e Científico da revista LEVS-UNESP; escreve às quintas-feiras nesse espaço: E-mail: gildassociais@bol.com.br, gilcriticapontual@gmail.com, e social@criticapontual.com.br.

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