Entre a utopia e a ideologia

Gilberto Barbosa dos Santos

 

O que há entre a utopia e a ideologia? Quem respondeu: aqueles que responderam: um grande amor tem grandes chances de estarem certo! Mas, para não resumir a minha reflexão de hoje a apenas uma interpelação e uma resposta direta, reta, porém de maneira correta, me imiscuirei no que compreendo ser a utopia e ideologia apontando a sua distinção e, quem sabe, chegar a uma conclusão do que vem a ser, de fato, esse grande amor que move a humanidade e comove aqueles que pretendem ser demasiadamente humanos.

Para não cansar, em demasia, os meus leitores, vou direto ao ponto sintetizando de maneira sintética o que entendo por utopia, isto é, em lugar algum, portanto, em um universo abstrato, semelhante àquele em que transitam as paixonites platônicas em que somente um sabe que ama e, criar, do ponto de vista das ideias – dai o idealismo -, um mundo perfeito, idêntico ao de Milton e Campanella. Se no campo sentimental, recorrendo a Platão, tudo é perfeito, logo o que se sente não tem máculas. Mas, se por um lado, no âmbito sentimental e das emoções, é possível idealizar uma relação perfeita, portanto, sendo essa a utopia de todos os seres humanos, será que, por outro, é possível vislumbrar essa mesma harmonia no que diz respeito ao mundo político, social, econômico e, porque não, religioso? Nesse campo, pode-se dizer que reina a ideologia e, ai, a questão navega pelo âmbito do senso comum e das visões críticas de mundo.

Se, no amor não é possível os homens se congregarem em torno de uma questão, na política, na religião, na economia, não se pode pensar da mesma forma, ou idealizar, pois na sociedade o todo só tende a ser coerente se tiver anuência dum rol de indivíduos que acreditam nas mesmas coisas, dogmas, credos, e outras patologias e ideologias. E é justamente nesse âmbito que reside um dos grandes males da modernidade: a intolerância e seus etnocentrismos. É comum nos bastidores da vida ativa as escolhas serem feitas para além do mérito, parafraseando aquele verso do grande poeta Carlos Drummond de Andrade (1902-1987): “vou-me embora para Pasárgada/lá sou amigo do rei”. No Brasil, país governado pela plutocracia em conluio com uma casta de burocrata aristocratizada, nunca esses versos de Drummond foram tão exatos.

Se for assim, e tendo a crer que sim, então será que na existência social tem espaços para a utopia, para crença de que um dia tudo vai melhorar e os viventes serão éticos e morais e não usarão mais essas formas como adornos discursivos de pouca prática? Se eu pensar de forma negativa, então não preciso mais continuar as linhas que teimarão em seguir as anteriores, sem que eu faça o menor esforço para tecê-las e tudo o mais serão meras aleivosias. Contudo, não observo a existência a partir desse ponto de vista, pois, assim como sei que o amor real existe e não vem pronto, como dizia um amigo que está casado há 50 anos e me disse que, durante todo esse tempo, ele e a esposa vêm, a meio século, buscando a felicidade. Então, o negócio é construir mentalmente o relacionamento perfeito, a exemplo do que Platão alegorizou em sua narrativa O banquete e, aos poucos, ir se ajustando ao parceiro de viagem sentimental. Todavia, é preciso ter claro que durante esse trajeto utópico, se faz necessário sempre se perguntar intimamente o que se espera do outro e qual é a contribuição que está se dando para que, minimamente, o universo sentimental idealizado seja concretizado.

Muitas das vezes, por deixar de fazer essas observâncias, os caminhos de muitos dos casais estão repletos de pedras, pedregulhos, espinhos, farpas e outras ervas daninhas com os nubentes se acusando disso e daquilo, responsabilizando o outro pelas mazelas que os afligem. Parece-me que essa atitude é complexa, principalmente nesse momento em que as pessoas são governadas pelos egos e pelos pronomes possessivos “meus”, “teus”, “suas”, “nossos” e regidos pela primeira pessoa do singular “eu”. Fazer esse tipo de reflexão seguida duma inflexão objetivando se compreender e se enxergar no parceiro, amigo de viagem, se torna tarefa árdua. Em virtude dessa dificuldade, a melhor coisa a fazer, é cada um ir para o seu lado e a vida segue. Enquanto existe na junção apenas duas pessoas, tudo vale e pode, entretanto, a partir do momento que se tem um filho como fruto desse relacionamento, tudo passa a ser diferente, porém, não significa que o casal precise viver debaixo do mesmo teto, como se diz no jargão popular, contudo é importante compreender que pode existir ex-mulher, ex-amigo, ex-marido, mas ex-filho, ex-pai, ex-irmão e ex-mãe não! Então, filho é para sempre, que se atente para isso aqueles sujeitos que pretendem viver a grande utopia sentimental observada por Platão e Aristóteles – este em seu livro Ética a Nicômacos.

Se eu expus, de forma breve um quantum do que penso ser o mundo da utopia, principalmente aquele atrelado ao quesito sentimental, das paixonites e do amor, será que no que diz respeito à ideologia, a reflexão pode ser a mesma? Parece-me que não, pois nesse universo as questões são mais emblemáticas, já que deixa a esfera do indivíduo e ingressa na problemática coletiva e o que cada um deseja que a turba realize. Nesta seara a coisa é mais complicada por se tratar da existência do sujeito social na esfera pública que acaba se imiscuindo com o universo privado, já que todos estão querendo existir para além dos muros de suas casas, através da esfera material de mercadoria na qual tudo tem o seu preço, cujo alcance consome princípios éticos e morais que deveriam normatizar a existência corpórea dos seres. Contudo, lamentavelmente não é bem assim! Ai para existir além do próprio espelho vale tudo para não ficar com as sobras das sobras, conforme Machado de Assis aborda em um dos seus romances no espetáculo das bandeiras que tremulam nos mastros da vida social.

Finalizando, a utopia é passível de concretização e quando isso ocorre, é provável se tornar uma ideologia. Pode-se dizer: “quero uma sociedade mais igualitária, fraterna e, sobretudo libertária. Quem pensa assim, congregue comigo. Quem pensa diferente, perseguiremos, pois pode ameaçar o nosso projeto de poder e enriquecimento a expensas do erário público!” Claro que este que vós escreve caro leitor, não objetiva congregar, conluiar com quem quer que seja para se atingir esse fim, mas apenas tentar transformar a minha utopia em algo concreto, todavia, esse anseio se esbarra em fortes ideólogos e seus asseclas, montados em seus possantes cavalos guiados por significativas quantidades de intolerâncias, presunções e totalitárias, disfarçadas de democracia – nesse campo a democracia deixa de ser ideologia e retorna à sua seara utópica, pois se dizer democrático é uma coisa, outra coisa é sê-lo, principalmente em se tratando de postos de comando. Enfim, ainda bem que, imagino, a utopia ainda é grande e o meu desejo é de existir de fato numa sociedade mais harmoniosa, com reduzidíssima injustiça social e sobretudo, um mundo meritocrático.

 

Gilberto Barbosa dos Santos, Sociólogo/Cientista Político, editor do site www.criticapontual.com.br, professor no ensino superior e médio em Penápolis; pesquisador do Grupo Pensamento Conservador – UNESP e membro do Conselho Editorial e Científico da revista LEVS-UNESP; escreve às quintas-feiras nesse espaço: E-mail: gildassociais@bol.com.br. , gilcriticapontual@gmail.com, e social@criticapontual.com.br.

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