Violência na educação

Gilberto Barbosa dos Santos

 

Com muita tristeza acompanhei as linhas que fundamentaram a matéria publicada no último domingo, 17 de setembro de 2017, pelo jornal de circulação nacional Folha de S. Paulo sobre violência no mundo educacional, mais especificamente agressões sofridas por professores durante o seu exercício profissional. De acordo com o material divulgado, aproximadamente dois educadores são agredidos diariamente em seu labor pedagógico (http://www1.folha.uol.com.br/educacao/2017/09/1919146-sp-tem-quase-2-professores-agredidos-ao-dia-ataque-vai-de-soco-a-cadeirada.shtml). Da tristeza a indignação foi um passo quando, me deparei com a observação feita por Wilson Levy, chefe de gabinete da secretaria estadual de Educação que tem à frente José Renato Lalini. “Segundo ele [Levy], a pasta anunciará em breve um programa para aumentar o número de professores mediadores na rede, com foco nas regiões com maior vulnerabilidade social do Estado. ‘Mas é preciso lembrar que o que acontece na escola é um sintoma’, afirma. ‘A violência está na sociedade’”. O que dizer de tal afirmação?

Acho que não devo continuar essa minha reflexão, já que o chefe de gabinete pede para todos se conformarem, porque a violência a que um professor está exposto diariamente é fruto da sociedade e a escola é seu mero reflexo. Se isso é fato, o que fazer, quando um funcionário de alto escalão governamental externa essa opinião em um jornal de circulação nacional que veicula matéria sobre a violência que os profissionais da educação estão expostos diariamente? Já faz um tempinho que venho externando aqui minha preocupação com a educação brasileira e o fato de que a sociedade virou às costas para a escola, sobretudo, as unidades públicas, muitas delas reféns do mundo do crime. Talvez, da poltrona da sala de muitos pais não seja possível perceber isso, em virtude de os mesmos terem terceirizado a educação dos seus rebentos, conforme já apontei várias vezes essa problemática aqui e alhures.

Posto isto, retomando o que foi publicado pela Folha de S. Paulo, deparo com a seguinte assertiva: “apontados como fatores que influenciam a violência escolar, os problemas sociais e de segurança pública não se resolvem simplesmente por iniciativa das escolas”. Esse fragmento é significativo para que se possa pensar, não mais no problema, e sim em sua solução, entretanto, o que se tem até o momento são medidas paliativas, enquanto mazelas governamentais acontecem sem que a sociedade observe seus sepultamentos. Por exemplo, a que fim levou a questão da máfia na merenda escolar? Será que o Legislativo concluiu as investigações? E o Ministério Público terminou seus trabalhos, apontando os culpados e estes foram sentenciados? No que diz respeito à Assembleia Legislativa de São Paulo, sabe-se que a maioria dos deputados estaduais vota com o governo com um pífio discurso pró-povo e eleitores.

Se esse é o quadro do cenário educacional paulista, e creio que o descalabro se repete nas demais unidades federativas, então não se tem solução e o passo seguinte é desistir e deixar que a escola continue situada e refém do pouco caso que o brasileiro faz dela e de seus professores. Sendo assim, desisto de continuar a escrever tal reflexão, já que não se vislumbra uma luz no fundo do túnel, como se diz no jargão popular, e aqueles que militam de forma sacerdotal no campo educacional, devem buscar outras vias profissionais, pois atuar como professor deixou de ser uma tarefa edificante, cujo escopo der quem atua tem é, antes de tudo, ajudar o aluno a transformar informação em conhecimento. Entretanto, na medida em que a sociedade avança em termos tecnológicos, o Brasil se estagna quando a temática é educação de qualidade. Essa observação está estampada nos rostos dos alunos: uns apáticos, desinteressados crendo estar lá apenas porque são obrigados pelos pais a estarem ali, se esquecendo de que a escola é, antes de um dever, é um direito das crianças e adolescentes conforme preceitua o Estatuto da Criança e do Adolescente.

A apatia dos estudantes, em determinado momento, pode significar uma violência contra o docente, pois este prepara aula, pensando nas diversas formas como os conteúdos serão ministrados, acreditando que terá pela frente uma plateia ávida pelos conhecimentos que lhe será vertido pelo professor, todavia, a situação é outra, configurando também uma violência, porém, simbólica, de acordo com o que aponta o sociólogo francês Pierre Bourdieu (1930-1972). Esta forma é tão perversa quanto à física, pois está estampada nas faces dos discentes que olham para os docentes como se, ao estarem ali, estivessem fazendo um “favor” ao educador.  Se essa agressão abstrata é abjeta, o que dirá então daquela personificada no afrontamento que o estudante faz ao professor quando este tenta trabalhar? É significativo observar que os pais precisam passar valores éticos e morais aos seus filhos, bem como a ideia de que a sala de aula é o ambiente laboral daquele profissional que escolheu transferir conhecimento às crianças, adolescentes e jovens, objetivando lhe proporcionar possibilidades de se construírem enquanto sujeitos sociais e produtores de um novo Brasil.

Mas será que isso acontece, isto é, os pais passarem aos seus rebentos informações e valores como estes? Para não ser catastrofista em enésima potência, quero crer que sim, no entanto, o problema é mais emblemático quando o estudante pergunta ao professor se este trabalha. Essa interpelação deixa claro que, para o universo fora da escola, lecionar é antes de tudo um hobby e não profissão que deve ser respeitada como outra qualquer e valorizada. Quer violência maior do que está? Somente aquela em que o educador é atacado com socos, pontapés, cadeiradas, rasteiras, cusparadas, alvejados com objetos e restos de comida e no grau máximo de atrocidade, assassinado, como se tem registrado ao longo dos últimos anos. Antes que a situação chegue a esse ponto, é preciso agir e as atitudes não podem se restringir à própria escola. Os pais, principalmente estes, é que precisam encampar a luta dos professores que, além de lecionar para alunos desinteressados, tem que equilibrar o orçamento familiar com baixos salários, se desviando diariamente das agressões, perpetradas por patuleia estudantil que se crê dona da verdade, integrante de uma geração que não aceita ver os seus interesses e desejos dentro da sala de aula contrariados. Quando isso ocorre, parte para atos violentos e outras agressões como recursos objetivando atingir o que se quer. Neste sentido, o interior da escola é mera reprodução do quadro social que caminha a velozes passos em direção ao caos e ai, tudo vira um “salve-se quem puder!” É isso! Sem o auxílio maciço da sociedade, a educação e de quebra, a escola será carcomida pelo descaso dos pais e alunos.

 

Gilberto Barbosa dos Santos, Sociólogo/Cientista Político, editor do site www.criticapontual.com.br, professor no ensino superior e médio em Penápolis; pesquisador do Grupo Pensamento Conservador – UNESP e membro do Conselho Editorial e Científico da revista LEVS-UNESP; escreve às quintas-feiras nesse espaço: E-mail: gilbertobarsantos@bol.com.br, gilcriticapontual@gmail.com, e social@criticapontual.com.br.

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