Educação e civismo

Gilberto Barbosa dos Santos

 

No dia em que meus leitores dedicam alguns minutos para lerem as linhas que se seguem, o Brasil está completando 195 anos de sua Independência. Os brasileiros teriam muito a comemorar, caso a cidadania existisse de fato e não apenas na letra fria da lei. Caso os três principais direitos, que escudam o exercício pleno dos mesmos por parte dos indivíduos, fossem seguidos de um civismo, a muito perdido, haveria láureas e galardões para um povo que sabe construir o seu futuro. Mas, na ausência desses preceitos, o que resta aos sujeitos sociais que pelejam diariamente na tentativa de concretizar um futuro melhor do que o presente assombrado por um passado de escravidão e descaso com os desafortunados e herdeiros de um liberalismo às avessas recheado por um patrimonialismo tacanho escudado por uma casta de burocratas aristocratizados, o que fazer?

Ficar de braços cruzados, lamentando a sorte que nunca lhe visitou? Reclamar dos políticos que ocupam os cargos através de escolhas democráticas e por meio de eleições diretas? Praguejar contra os céus, como se diz no jargão popular? Penso que tais interpelações são pertinentes nesse Sete de Setembro, data tão festiva que rememora figuras significativas da história brasileira, como o maçom José Bonifácio de Andrade e Silva (1763-1838), considerado o patrono do movimento que proporcionou o desligamento do Brasil de Portugal, criando aqui uma Pátria que, quiçá seus defeitos, a maioria deles de fundamento datados do momento da chegada da Família Real em 1808, se constitui uma Nação que ainda se encontra em construção – daí a necessidade de resgatar o ideal de civismo e patriotismo a muito deixado de lado por boa parte dos indivíduos que vivem nesse solo que lhe é gentil.

Tendo essas observações como premissa, é que exalto e saúdo a Augusta Loja Maçônica “Estrela da Noroeste do Brasil” pela realização da sua 43ª edição da Maratona Cívico Cultural Semana da Pátria. Quem esteve em seu templo na manhã do último domingo, 03 de setembro e nas dependências da instituição em que foram realizadas as provas, no sábado dia 02, entenderá o porquê da ênfase que estou dando ao significativo evento. Os organizadores da “competição”, por assim dizer, já que o seu objetivo é estimular o estudo, despertando nos alunos o patriotismo e amor pelo Brasil advindo do conhecimento de seus aspectos históricos e geográficos. Quando se participa da premiação da maratona, é possível observar que a questão, antes de se pautar pela disputa, é fazer com que alunos e professores, além dos envolvidos na realização do certame, despertem nos participantes o desejo de ver esse país bem diferente do que é, observando que a construção de uma Pátria passa por todos os seus cidadãos, não sendo dever, mas sim missão!

Se por um lado, temos homens discretos, mas briosos em seus princípios éticos e morais, trabalham diariamente na construção de outro Brasil, no qual os jovens se orgulhem em sonhar e trabalhar para a realização de seus ideais de vida, por outro, há os professores das escolas que abrilhantaram o evento que há 43 vem sendo realizado de forma ininterrupta. Portanto, a vitória é de todos, incluindo ai os educadores que, diariamente, enfrentam o descaso da sociedade como um todo, mas mesmo assim não desistem de seus alunos, sobretudo aqueles que acreditam ser possível mudar as próprias realidades sociais, quiçá os que creem que a sala de aula é para fazer tudo, inclusive reproduzir condutas impróprias evidenciando comportamentos advindos de lares carentes de valores singulares que norteiam a ação dum indivíduo em sociedade – até mesmo esses, se despertados de forma correta, construirão um amanhã diferente do hoje que são possuidores.

Posto isso, me detenho no título dessa reflexão: educação e civismo, cujo objetivo é observar aos meus leitores que ainda há tempo para transformar esse Brasil chafurdado no lamaçal provocado por enxurradas e as chuvas torrenciais que caem do alto de um trono republicano carcomido pela corrupção e pelo desejo atroz dos participantes desse baile – maléfico para a democracia – de se enriquecerem não através do trabalho diário, mas sim das mutretas e escaramuças soerguidas nos bastidores do poder por abjetos indivíduos dados a ludibriar o cidadão-eleitor que acredita que a situação vai melhor quando fulano, associado a beltrano assumir o comando do país, dum estado ou paroquia municipal.

O exposto no parágrafo acima não é novidade para ninguém, ainda mais sabendo que o brasileiro é responsável pelo teatro de horrores que se instalou na Capital Federal, evidenciando um quadro pior do que aquele momento que antecedeu o golpe de 64, conforme apontou o filósofo e professor da USP, José Arthur Giannotti. Segundo ele, esse processo pode ser fruto de uma democracia meramente formal. “Tudo no Brasil é formal. Vivemos numa democracia formal. As eleições são falsificadas pelos rios de dinheiro, pela propaganda nas TVs. Isso é melhor do que o populismo na Venezuela, mas é uma boa democracia? Não é”, diz Giannotti (http://www1.folha.uol.com.br/poder/2017/09/1915556-o-psdb-morreu-nao-e-mais-um-partido-diz-giannotti.shtml). Se o cenário apontado pelo intelectual brasileiro é verídico, como transformá-lo? Seria o primeiro passo a alteração no nível de consciência política do indivíduo que escolhe seus candidatos? Parece-me que a resposta a esta poderia ser um sonoro sim, entretanto, quais as ferramentas seriam utilizadas para que essa mudança de postura fosse concretizada no âmbito real, já que no mundo das ideias – a exemplo do que diz Platão – tudo é perfeito e possível?

Eu começaria a jornada em busca da resposta pela Maratona Cívico Cultural, promovida anualmente pela Loja Maçônica “Estrela Noroeste do Brasil” penapolense. Todo trabalho em torno dessa competição, significa que sementes estão sendo plantadas anualmente e cabe a cada um dos pais, professores e demais autoridades, não deixar que sua germinação e crescimento sejam asfixiados pela corrupção, desânimo, desorientação. Como bem disse Adhemar Modena, um dos organizadores na sessão solene do último domingo no templo maçônico, toda a ação visa preparar homens para manter esse país funcionando de forma ordenada objetivando sempre o progresso material e social desta Nação. Voltarei a essa temática em outro momento, para o momento fiquemos com a comemoração de nosso sete de Setembro.

 

Gilberto Barbosa dos Santos, Sociólogo/Cientista Político, editor do site www.criticapontual.com.br, professor no ensino superior e médio em Penápolis; pesquisador do Grupo Pensamento Conservador – UNESP e membro do Conselho Editorial e Científico da revista LEVS-UNESP; escreve às quintas-feiras nesse espaço: E-mail: gilbertobarsantos@bol.com.br, gilcriticapontual@gmail.com, e social@criticapontual.com.br.

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