Possibilidades de um novo país

Gilberto Barbosa dos Santos

 

Vou direto ao ponto: não vislumbro saídas para o Brasil que não seja através da democracia e da racionalidade econômica! Explico! Qualquer tentativa de quebra da ordem vigente, não colocará o Brasil nos trilhos, como se diz no jargão popular! Também não compactuo com políticas farisaicas, como as que foram praticadas nos últimos 15 anos, perpetradas por um governo, designado por Ruy Fausto em seu livro Caminhos da esquerda: elementos para uma reconstrução (Companhia das Letras, 2017), como neopopulista. Nessa linha também não enxergo espaço para uma gestão vinculada ao universo da Ditadura Militar que grassou nos territórios brasileiros durante um quarto de século. Mas, como está se numa sociedade em que a liberdade é plena e o gozo dos três direitos fundamentais para se tornar um cidadão se encontra em plena vigência, pode-se defender qualquer ponto de vista político-ideológico, até porque, como dizia o enciclopedista francês Jean Le Rond D’Alembert (1717-1783): é possível discordar do que o outro está dizendo, mas deve-se defender eternamente o direito deste dizer.

A frase final do parágrafo anterior evidencia uma série de questões caras, por exemplo, à população venezuelana que vive uma ditadura do tipo bolivariana que conta com o aval de partidos da chamada esquerda brasileira que Fausto os designam em sua obra como de envergadura neototalitária. Se as atitudes antidemocráticas que varrem o país latino-americano contam com a anuência de legendas do Brasil, isso significa que, pelo menos do meu ponto de vista, ainda são imaturos no âmbito político-eleitoral, mas, podem defender seus interesses, entretanto, devem restringir seus argumentos dentro do campo do debate, seja ele teórico ou prático. Diálogos salutares para a construção de uma sociedade diferente da que se tem e se objetiva, já que a prática de hoje indica o mundo que se constrói e se almeja no futuro. Bom! O meu leitor semanal pode estar-se perguntando: se não há caminhos, pelo menos até o momento, para a construção de uma sociedade com forte viés de esquerda dentro dos princípios democráticos e do jogo eleitoral, então a saída para se constituir uma Nação, diferente dessa que ai, se encontra pela direita, como dizia aquela personagem do desenho animado Leão da Montanha?

Pode-se especular e caminhar para uma resposta afirmativa, mas de qual direita se espera tal comprometimento político para transformar o Brasil? Para responder a essa pergunta, faz-se necessário introduzir outra: existe Direita, ou melhor, um comportamento de direita nesse país? No campear de argumentos para se chegar a uma afirmação, o perscrutador detalhista usará a observação feita pela personagem Dona Cláudia, que junto com seu marido, o advogado conservador Batista, ilustra o penúltimo romance machadiano Esaú e Jacó (Companhia das Letras, 2012), segundo a qual no mundo da política se dança conforme a música que está sendo executada no baile da Ilha de Pindorama. Portanto, nesta acepção, a direita é inexistente, assim como o liberalismo clássico conforme aventado pelo pensador inglês John Locke (1632-1704). Neste sentido, entendo que a discussão apresentada pelo crítico literário Roberto Schwarz no ensaio As ideias fora do lugar (Companhia das Letras, 2014) e questionada pelo também crítico literário Alfredo Bosi no ensaio Liberalismo ou escravidão: um falso dilema?, que integra o livro Ideologia e contraideologia (Companhia das Letras, 2010), continua presente e deve ser levada adiante diante de muitas palavras de ordem rechearem o cenário político nacional.

Diante do exposto e, a partir de uma investigação ideológica no âmbito brasileiro, me parece interessante observar que no Brasil Oitocentista existiam duas agremiações ou feudos partidários: o Conservador e o Liberal e entre eles o Poder Moderador. Será que as duas entidades políticas não estariam presentes no atual cenário brasileiro? Se perscrutar a cena partidária nacional, será possível observar PSDB e PT se engalfinhando para conquistar, não a simpatia do eleitorado, mas das outras legendas detentoras de consideráveis feudos eleitorais que mudam de nomenclatura, mas suas estruturas internas não se alteram, situação que tende a se perpetuar, caso o Congresso Nacional aprove essa famigerada reforma política que, de mudança, não tem nada, já que o escopo é manter os caciques partidários dando as cartas no Legislativo. Bom! Se PT e o PSDB se assemelham às duas organizações do Brasil Imperial, a quem caberia o papel de Poder Moderador? Ao PMDB? Outra interpelação que requer profundas análises, pois nem a Monarquia existe mais e nem esse fiel da balança imperial conduzido com maestria por D. Pedro II são encontrados.

Para não transformar essas linhas em meras digressões quase que acadêmicas, me parece que o importante é voltar à dicotomia esquerda e direita no Brasil e, quem sabe, uma paradinha nas páginas que recheiam o livrinho Direita e esquerda (Editora da UNESP, 1995), do pensador italiano Norberto Bobbio (1909-2004), objetivando entender se essas designações têm de fato raízes em nosso país. Parece-me que assim como há uma sopa de siglas que se arvora o direito de se designar como Direita, também há um amontado do outro lado da peleja que acredita ser o paladino e arauto de uma esquerda nacional, herdeira duma determinada interpretação leniniana-marxiana. Até ai nada de mais, mesmo porque conforme já venho aventando há tempos, todos têm direito de professar seu credo ideológico, religioso e futebolístico – para ficar nessa trindade que tanta confusão causa quando recheia a discussão de pessoas possuidoras de pouco conhecimento sobre o assunto. Sendo assim, compreendo que nem direita, nem esquerda estão bem fundamentadas no Brasil enquanto movimentos políticos, mesmo tendo programas partidários que possam balizar o que acalentam seus filiados, entretanto, como pode um ser de direita, portanto, liberal, apregoar a presença do Estado na sociedade garantindo pão na mesa do cidadão, sem que este faça algo de importante para merecê-lo.

Se por um lado, observa-se essa direita-liberal com discurso que não se sustenta em suas adjetivações partidárias, por outro, se vislumbra uma esquerda que deseja um Estado gigantesco, recheado de cargos, negando veementemente o Capitalismo, mas se mantendo de pé através do dinheiro que jorra do setor produtivo que chega a essas legendas e seus satélites – os sindicatos – por intermédio do Fundo Partidário e da Contribuição Obrigatória do trabalhador. Do meu lado, não entendo como isso pode ganhar robustez, mas há quem defenda esses princípios e dizem que os mesmos estão vestidos com os casacos da Direita e da Esquerda. Será possível sair um novo Brasil dessa dicotomia?

 

Gilberto Barbosa dos Santos, Sociólogo/Cientista Político, editor do site www.criticapontual.com.br, professor no ensino superior e médio em Penápolis; pesquisador do Grupo Pensamento Conservador – UNESP e membro do Conselho Editorial e Científico da revista LEVS-UNESP; escreve às quintas-feiras nesse espaço: E-mail: gilbertobarsantos@bol.com.br, gilcriticapontual@gmail.com, e social@criticapontual.com.br.

 

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