Ira do novo feminismo é acerto de contas, diz historiadora Rebecca Solnit

FERNANDA MENA

DE SÃO PAULO

11/08/2017  02h00

 

“Uma pessoa livre conta a sua própria história. Uma pessoa valorizada vive numa sociedade em que a sua história ocupa um lugar”, escreve a historiadora norte-americana Rebecca Solnit, 56, sobre o papel do silêncio na repressão social às mulheres e a atual recusa feminina em calar diante da violência e das desigualdades de gênero.

O ensaio “Uma Breve História do Silêncio” faz parte da coletânea “A Mãe de Todas as Perguntas” (Companhia das Letras), que chega ao Brasil em setembro, pouco depois de outro volume de ensaios, anterior e recém-lançado no país, “Os Homens Explicam Tudo para Mim” (Cultrix) –o texto que dá título à obra inspirou “mansplaining”, termo que entrou para o dicionário Oxford e ganhou o mundo.

Solnit faz, no ensaio, o hilário relato de como um homem lhe explicou longamente o conteúdo de um livro que ela própria havia escrito.

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No livro mais recente, batizado com o título de um artigo publicado na revista “Harper’s”, onde Solnit é colunista, ela explora a ideia de autodeterminação a partir da persistência de questões sobre maternidade e família –feitas frequente e quase exclusivamente às mulheres.

Em entrevista à Folha por e-mail, a autora fala de filhos, estupro, Donald Trump e de certa virulência da nova onda feminista. “É um acerto de contas. E ele não acabou.”

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FOLHA – Qual é “A Mãe de Todas as Perguntas”?

REBECCA SOLNIT – Como título de livro, pode se referir a muitas coisas. Entre elas, questões feitas a mulheres baseadas na suposição de que suas vidas devem girar em torno de maridos e filhos.

 

Isso ocorre porque a mulher ainda é vista majoritariamente em sua função biológica ou porque ao abdicar deste papel ela ameaça os homens?

Para muitos homens e algumas mulheres, a função da mulher é ter filhos. O grande escritor americano James Baldwin [1924-1987] disse: “Se eu não sou o que você diz que eu sou, então você não é quem pensa que é”. Se mulheres não são servas, homens não são senhores. Se mulheres não são inferiores, homens não são superiores. Há homens que ainda lutam contra a ideia de que mulheres são seres humanos iguais a eles. A humanidade, o poder e a inteligência das mulheres os perturbam e à sua busca pelo domínio.

Espero que essa espécie de homem entre em extinção para o bem de todos, pois essa é a suposição por trás da violência doméstica: tenho o direito de controlar você, sou seu dono, você não tem direitos, nem à integridade de seu corpo, nem mesmo direito à vida.

 

Até que ponto a associação do feminino com a ideia de cuidado é natural?

As mulheres são tão condicionadas a cuidar do bem-estar alheio que têm dificuldade de cuidarem de si. Vemos isso com aquelas que perdoam os homens que as machucaram. Já os homens são condicionados a serem egoístas.

Uma mulher me contou que estupro era tão comum na sua faculdade que nunca pensou em denunciá-lo, tolerava sua ocorrência. Isso me fez pensar não só na grande quantidade de mulheres vítimas mas também na de estupradores. O que pode ter deformado tanto esse meninos? Eu me preocupo mais com as vítimas, mas os perpetradores de violência são muito prejudicados também.

 

Você afirma que os últimos anos foram de revitalização dos movimentos de mulheres, o que parece ter ocorrido no Brasil também. Por que agora?

Fico feliz em saber que isso tem ocorrido no Brasil. Às vezes as mudanças são lentas como água batendo numa pedra. Às vezes são como um terremoto. O poder e as ideias feministas foram construídas lentamente a partir de sua fúria e frustração com a violência. Logo as mulheres jovens começaram a falar sobre estupros nas universidades. Sua solidariedade e sua recusa ao silêncio e à vergonha deram início a um movimento.

Como há mais mulheres jornalistas, editoras e produtoras de TV, essas histórias passaram a ser contadas de outra maneira e receberam outro tipo de atenção. As mídias sociais tiveram também o seu papel, já que milhões de mulheres juntaram suas vozes para dizer “isso aconteceu comigo”. Passamos a revisar o que nos diziam até então: “não é algo comum”, “é culpa dela, e não dele”, “são as vítimas que mentem” etc.

O tenebroso episódio do estupro coletivo e da morte de Jyoti Singh em Nova Délhi, além de vários escândalos nos EUA, foram nossos terremotos. É um acerto de contas. E ele não acabou. Antes de curar uma doença, você precisa diagnosticá-la e nomeá-la. Esta doença está longe da cura, mas nomeá-la e apontar a culpa são passos importantes.

 

Negar o binarismo masculino-feminino promove equidade de gênero ou precisamos dessas categorias para identificar as desigualdades?

O que eu aprendi em meio século de mudanças sociais é que frequentemente conflitos e dramas podem parecer exacerbados, mas são um modo de promover a substituição das coisas “como são” pelas coisas “como têm de ser”.

Há hoje muita rebeldia em relação a convenções de gênero e papéis sexuais. Mas talvez em cem anos a maior parte de nós vá se identificar como homem ou mulher sem achar isso tão importante para determinar quem são, o que fazem e quem amam. Se os papéis podem ser preenchidos por todo tipo de pessoa, não vamos pensar em trabalho doméstico como feminino e engenharia como masculino.

 

Qual história deu origem ao termo “mansplainning”?

Quando era mais jovem tinha a impressão de que os homens achavam que eu havia nascido para ouvi-los, admirá-los e bajulá-los, fosse quando tocassem guitarra ou quando me explicassem o funcionamento de algo. É como quando eles acham que mulheres devem sorrir para eles na rua e ficam bravos se não acontece.

Esse tipo de homem acha que as mulheres estão ali para servi-los. Eu tive essas experiências e elaborei uma perspectiva crítica sobre eles. O fenômeno batizado de “mansplaining” a partir do meu ensaio denuncia a arrogância de homens que acreditam saber algo que não sabem e supõem que ela não sabe algo que sabe. A história que inspirou o ensaio, sobre o homem que me explicou meu próprio livro, é engraçada, mas conheci médicas, cientistas e advogadas que estão cansadas de serem tratadas como alguém menos qualificado do que são.

 

Você escreveu que Donald Trump é o homem mais zoado do planeta. Por quê?

Ser rico e privilegiado pode ser triste. Se todo mundo tem medo ou depende de você, se ninguém fala o quanto você está sendo grosso ou equivocado, você perde contato com a humanidade do outro e com a sua. Trump é um homem perdido. Ele se esforça para nos impressionar e depois esconde o fato de não estarmos impressionados. A grande piada com a manifestação feminista de 21 de janeiro [a maior da história dos EUA] é que nunca um homem foi rejeitado por tantas mulheres de uma só vez. Ele vai terminar mal.

*

MINIGLOSSÁRIO
Termos importantes do ativismo feminista.

BROPRIATING
Neologismo que une ‘bro’ (‘brother’, mano, cara) e ‘apropriation’ (apropriação). Usado quando um homem toma ideias de uma mulher sem dar o devido crédito

CULTURA DO ESTUPRO

Designa a negação ou tolerância social ao crime de estupro e sua incidência, a prática de culpar a vítima e o descrédito diante de seu relato; abarca também representações culturais de agressões a mulheres

FEMINICÍDIO
Assassinato em função do gênero, motivado pelo ódio, desprezo ou perda de controle sobre a mulher, tipificado principalmente pela desfiguração e pelo ataque a rosto, seios e genitália, precedido ou não de violência sexual

GASLIGHTING
Atacar um posicionamento feminino como exagero ou loucura, na tentativa de desmerecer o argumento ou de levar a mulher a crer que sua percepção da realidade esteja distorcida. Vem do filme ‘Gaslight’ (‘À Meia Luz’, de 1944), que aborda situação assim

MANTERRUPTING
Interrupção da fala de uma mulher por um homem para demovê-la de sua argumentação, ‘validar’ o que ela dizia ou ter a última palavra

MANSPLAINING
Une ‘man’ (homem) e ‘explain’ (explicar) e designa situações em que homens explicam a mulheres algo que elas já sabiam ou que é óbvio, mas que eles supunham que elas não fossem capazes de apreender sozinhas

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Disponível no site http://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2017/08/1908788-feminismo-e-acerto-de-contas-diz-rebecca-solnit-que-lanca-dois-livros.shtml (acessado no dia 11/08/2017 às 21h55)

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