Proletários do saber

Gilberto Barbosa dos Santos

 

“Proletários de todo mundo, uni-vos!” [Proletarier aller Länder, vereinigt euch!], célebre frase que recheia o clássico das Ciências Sociais, O manifesto do Partido Comunista, escrito na segunda metade do século XIX pelos pensadores esquerdistas Karl Marx (1818-1883) e Friedrich Engels (1820-1895). Até ai nada de mais, a não ser que a mesma tenha ultrapassado as linhas geográficas da Europa Oitocentista chegando aos trópicos incitando muitos movimentos sediciosos na América Latina, provocando a ira dos detentores dos capitais transnacionais e seus coturnos. Contudo, é preciso observar se ela continua válida neste Terceiro Milênio em que as relações entre Capital e Trabalho ganham outras nuanças, inclusive aqui no Brasil, onde o governo do presidente Michel Temer empurra goela abaixo do trabalhador, reformas que se quer foram amplamente debatidas com a sociedade, mas somente com os patrões e seus representantes no Congresso Nacional. Muitos acreditam que se as regras pegarem, se estabelecerá não mais a proletarização do cidadão e a sua miserabilidade, mas a institucionalização do lumpemproletariado [lumpenproletariat] – conceito amplamente difundido por Marx em sua obra O 18 Brumário que analisa, em linhas gerais, os eleitores de Luís Napoleão (1808-1873), mais conhecido como Napoleão III – primeiro presidente da Segunda República Francesa e, depois Imperador do Segundo Império Francês – sobrinho de Napoleão Bonaparte. Acrescente-se o fato de ter sido o primeiro presidente francês eleito pelo voto direto, dai o interesse na formação daqueles que o escolheram como chefe do Executivo daquele país.

Mas por outro lado, discute-se também se o conceito de classe social, criado pelo Marx e Engels na Inglaterra industrializada na Europa Oitocentista, não estaria ultrapassado no mundo global de mercadorias e internacionalização financeira e das relações humanas, a chamada época do pós-trabalho ou, como querem alguns, do cybertrabalho? Responder a essa pergunta requer do interessado uma vasta avaliação no campo das relações sociais, não somente no que diz respeito à exploração da mão de obra, como da robótica, marcadas, sobretudo pela distinção entre sentimento e emoção – voltarei a essa temática em outra oportunidade. Contudo, como o meu escopo aqui não é realmente atentar-me para essas questões que são profundas, deixando marcas indeléveis nos seres humanos que a vivenciam, vou me enveredar por outra seara – quereria eu poder escrever alguma coisa sobre a sentença do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, todavia, creio que a problemática envolvendo a mão de obra pedagógica e sua pauperização, para não dizer, lumpemproletarização – para pensar como Karl Marx -, me parece ser mais emblemática. Entendo desta forma, pois não adianta decreto governamental, seja da esfera municipal, estadual ou federal criando vagas aqui e ali, programas de transferência de rendas para as famílias que mantenham seus rebentos nas escolas, ou a famigerada progressão continuada, cujo objetivo é evitar a evasão escolar e rechear balanços e relatórios com números que não condizem com a realidade que o país tem no âmbito educacional – um verdadeiro fiasco, para não dizer, tragédia.

Já que a temática é educação e para não tornar a minha reflexão um caminhão digressivo, tornando-a desinteressante para o leitor, reporto a matéria que um jornal, de circulação nacional, publicou na última segunda-feira, 24 de julho, sobre a ausência de professores dentro das salas de aula. Segundo o material divulgado, a falta de docentes na rede pública de ensino paulista chega ser de 30 dias, de um rol de 200 dias letivos. Em determinado trecho da notícia, o leitor encontrará a seguinte assertiva: “[…] os altos índices de faltas, com muitas licenças médicas, expõem as precariedades na carreira do professor. Dois em cada dez docentes de São Paulo, por exemplo, dão aulas em mais de uma escola. Não raro, trabalham em redes diferentes”. Esse é o ponto da questão para o Brasil, que foi cantado um slogan até bem pouco tempo atrás como sendo a “Pátria da educação”. Contudo, não se pode somente atribuir a falência do sistema a esse governo que, bem ou mal, tentou equacionar a problemática apresentando soluções em curto prazo, objetivando melhorias futuras, porém, é interessante acrescentar ao fiasco educacional como consequência de uma política equivocada, em certo ponto, da redistribuição de renda e os programas sociais, como o de apenas exigir presença na sala de aula para ter direito ao benefício. Em minha opinião, começa ai o fracasso escolar, associado a mudanças estapafúrdias, perpetradas por governos interessados em rechear os índices de aprovação – a ênfase aqui é a progressão continuada que muito se diz, mas pouco se faz para dar resultados satisfatórios. Se Por um lado, tem lá seus benefícios, por outro, e ai é que quero chegar, tem sido uma tragédia, pois alunos aportam no ensino médio completamente analfabetizados, ou seja, sabem escrever o nome e algumas linhas, mas são incapazes de interpretar um texto e a própria realidade social e de como se tornam massas de manobras de partidos e ideologias refratárias e populistas.

Lógico que a temática merece discussões mais fecundas e é o que já vem sendo realizado há algum tempo, portanto, não tenho ambição de, em um texto dessa magnitude, dar conta da problemática como um todo, no entanto, creio ser possível indicar, mesmo que maneira sucinta, um dos flancos da questão, qual seja: o descredito que a carreira docente vem ganhando nas últimas décadas e creio que o maior culpado é a péssima remuneração que recebe um professor para ministrar uma aula. Na rede pública paulista, a hora/aula de 50 minutos não dá para pagar uma lata de leite em pó.  Se isso é fato, e tendo a crer que sim, basta ir ao supermercado e comparar os preços com o holerite do docente. Desta forma, como é possível haver mudanças significativas num país que remunera e trata como um lumpem o profissional responsável por gerar mentalidades que edificarão uma nova Nação? Qual profissional, com ensino superior, recebe salários superiores aos dos docentes de primeiro e segundo grau, a base da educação nacional? A culpa é de quem? Do populismo educacional conduzido pelas autoridades pedagógicas no âmbito burocrático educacional nacional? Dos professores que se sujeitam a triplas jornadas diárias para darem um quantum razoável de qualidade de vida para seus familiares? Dos pais que mandam os filhos para as escolas, crendo que elas são obrigadas a instruírem seus rebentos, além de educá-los do ponto de vista ético-moral – atividade restrita a esfera privada, isto é, do lar? Do Estado que, conforme prevê o ECA é o responsável por fornecer educação de qualidade às crianças e adolescentes?

É! Caro leitor, como pode observar, são tantas as perguntas que parece ser impossível, ou quase isso, começar a respondê-las, entretanto, enquanto se fica nessa encruzilhada querendo saber o que veio primeiro o ovo ou a galinha, a situação beira ao descalabro e os professores, estafados, recebendo uma clientela sem nenhum compromisso com o futuro, fruto de pais alienados e desprovidos de sentido, geradores de filhos que, na falta de perspectivas, repetem os atos dos genitores e na falta deles, dos heróis que perambulam pelas ruas vivendo de pequenos ou grandes delitos. Para mudar, é preciso ousar e essa ousadia parte do Estado, com o aval do cidadão que deve cobrar melhores remunerações para os professores, pois é inconcebível receber menos do que uma lata de leite em pó para ajudar a formar os cidadãos do futuro.

 

Gilberto Barbosa dos Santos, Sociólogo/Cientista Político, editor do site www.criticapontual.com.br, professor no ensino superior e médio em Penápolis; pesquisador do Grupo Pensamento Conservador – UNESP e membro do Conselho Editorial e Científico da revista LEVS-UNESP; escreve às quintas-feiras nesse espaço: E-mail: gilbertobarsantos@bol.com.br, gilcriticapontual@gmail.com, e social@criticapontual.com.br.

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