As mordaças e seus escribas

Gilberto Barbosa dos Santos

 

Quando a temática requer, sempre emitirei minha opinião sobre fatos inusitados. E me parece que é o momento, principalmente quando se cobra uma imprensa livre, sem mordaças [linhas finas de pano, cordas ou qualquer outro material cm que se ata a boca de uma pessoa, impedindo-a de falar ou gritar], sem peias, todavia, com responsabilidade. Será possível obtermos isso em cidades de pequenos portes, instaladas no interior do Brasil? Quem disse não, acertou! Isso mesmo, escrever, sobretudo, a verdade sobre os bastidores dos poderes palacianos em paragens dominadas por velhos princípios políticos disseminados por politiqueiros matreiros e seus coronéis, não é tarefa fácil, entretanto, aquele se propõe a esse ofício precisa fazê-lo, independentemente de quem seja a verdade que virá à tona.

Seria belo se pudesse ser assim, mas acredito que um dia isso venha a se tornar uma realidade e não mera peça ficcional, mas se houver compartilhamento da sociedade que anseia tanto por saber como os fatos se passam e não como os governantes gostariam que eles fossem narrados aos cidadãos e aos leitores desavisados. Neste sentido, “o cronista”, como bem lembrou o filósofo alemão Walter Benjamin [1892-1940], “que narra os acontecimentos, sem distinguir entre os grandes e os pequenos, leva em conta a verdade de que nada do que um dia aconteceu pode ser considerado perdido para a história” (BENJAMIN, 1994, p. 223). Bela observação do pensador alemão que tirou a própria vida diante o avanço nazista pela Europa durante a Segunda Guerra Mundial, no entanto, de difícil execução em sociedades, semelhantes às retratadas pelo escritor baiano Jorge Amado [1912-2001] em suas clássicas novelas Gabriela, cravo e canela (2008) e Tocaia Grande (2008), em que o chefe do Executivo coopta a mídia local de todas as formas, principalmente no que diz respeito ao aspecto financeiro e, em contrapartida, exige fidelidade canina dos seus apaniguados da informação. Até aí nada de mais, pois sempre foi assim, conforme os escritores brasileiros José Martiniano [1829-1877] e Joaquim Maria Machado de Assis [1839-1908] retrataram em seus escritores, contudo, o mundo se encontra em outro patamar, com informações globalizadas e meios de comunicações que levam aos seus eleitores, matérias instantâneas relativas a fatos e não a boatos, e em alguns casos, ao vivo. Portanto, manter uma postura dos velhos coronéis que rechearam as páginas ficcionais deste país desde que se tornou uma Nação literária, me parece arcaico, antigo, para não dizer, provinciano.

Para tentar eliminar a mordaça no mundo da imprensa, a Constituição Federal de 1988 tem dispositivos que permitam ao cidadão expressar a sua opinião, bem como os órgãos midiáticos adotarem um dos lados da pendenga a partir de editorais claros e objetivos, sem tentar emitir sentenças ou juízos de valores. Pois bem, a referida Carta Magna nos traz na alínea IV do artigo 5.º – Dos direitos e garantias fundamentais – segundo o qual todos são iguais perante a lei – a seguinte assertiva: “é livre a manifestação do pensamento, sendo vedado o anonimato”. Mais adiante, no item V lê-se “é assegurado o direito de resposta, proporcional ao agravo, além de indenização por dano material, moral ou à imagem”. Diante dessas duas colocações, será que os nossos políticos quando são possuidores de informações ou fizeram algo que desejam mantê-las escondidas, as têm publicadas pela mídia, usam corretamente esse dispositivo? Para tentar responder essa pergunta vou direto à alínea XIV do referido artigo: “é assegurado a todos o acesso à informação e resguardado o sigilo da fonte, quando necessário ao exercício profissional”. O segundo passo, na tentativa de conferir conteúdo à interpelação, é externar aqui a minha incompreensão para um fato que me chegou e, como os dispositivos constitucionais me asseguram, em nenhum momento irei revelar a fonte, mas a ocorrência sim.

Sendo assim, passo ao que pode ter acontecido: um jornalista que tem um blog, publicou um texto intitulado “Carta aberta ao prefeito” [disponível no site http://www.blogdofaria.com.br/2017/07/cartaaberta/], no qual, dentro da perspectiva democrática, faz críticas à conduta do chefe do Executivo local no que diz respeito a algumas coisas que este vem propalando, como por exemplo, que a imprensa estaria massacrando o seu governo, que ela é sensacionalista. O blogueiro, na sequência, aponta o que considera equívocos do gestor – como ele mesmo gosta de ser chamado – em diversas frentes, como por exemplo, entrar com ação trabalhista contra a prefeitura, todavia, não quer que a imprensa, ou os meios de comunicações independentes e outras mídias repercutem os atos desastrosos do prefeito – para lá de estranho, mas até ai se a lei lhe faculta tal procedimento, como dizem os juízes em suas sentenças: “cumpra-se”. Só não vale querer amordaçar a sociedade, querendo apenas bajuladores, apaniguados e flores sem espinhos. Em um universo democrático, não existe unanimidade e quando um cidadão com cidadania externa a sua opinião, sem entrar na esfera privada de um chefe de Executivo que se colocou nessa condição, pois foi pedir voto para o eleitor, independentemente de este ser desprovido ou não de conhecimento político, se tornou pessoa pública e seus atos, na condição de prefeito, sempre estará sobre a vigília do indivíduo social. Isso é fato e não tem argumento que questione o direito da pessoa interpela-lo e, neste sentido, faz-se necessário ter uma mídia livre e sem peias, pois como disse certa vez Thomas Jefferson [1743-1826], a base de qualquer governo é a opinião pública. Portanto, o primeiro objetivo do governante “é o de mantê-la intacta. E, se coubesse a mim decidir se precisamos de um governo sem imprensa ou de uma imprensa sem governo, eu não hesitaria um momento em escolher a segunda alternativa”.

Pelo que disse o terceiro presidente norte-americano, é possível apontar que os nossos provincianos governantes preferem uma sociedade sem imprensa ou que esta lhe seja subserviente, e isso está espalhado pelo Brasil, inclusive com os grandes veículos de informação sendo apedrejados pelos bajuladores dum certo tipo de governo que, não querendo ter seus atos questionados pelos brasileiros, adjetivam a mídia e a imprensa nacional como sendo veículo burguês, contra o trabalhador, avessa ao pobre, que o puxa o saco da indústria e dos capitalistas. É interessante ler com determinada acuidade esses veículos impressos e digitais a partir de seus editorais. Seria importante se os jornais de Penápolis e mídias apresentassem seus editorais para que o leitor pudesse compreender o posicionamento do órgão diante de determinados acontecimentos que, às vezes, chegam – quando chegam -, distorcidos aos ouvidos, olhares e leitura dos cidadãos. Eu poderia ficar aqui tecendo uma saraivada de rosários que aponte as mazelas e outros equívocos do nosso universo midiático, seja aqui ou alhures, entretanto, partirei para outro flanco da peleja, para não ser parcial e puxar a sardinha somente para o lado do cidadão-eleitor que se recusa a ser manipulado por matérias distorcidas que enaltecem apenas o lado do chefe do Executivo quando todos são cônscios de que as coisas não vão muito bem lá pelos lados do reino da Dinamarca, em uma das margens do córrego Maria Chica, como se diz no jargão popular.

Pois bem. É de quem a culpa de a mídia ser cooptada nos rincões brasileiros? Apontar o sistema é comodismo demais. Para entender esse processo, farei uma conta simples. Pegue-se Penápolis, cidade com aproximadamente 65 mil habitantes. De acordo com as aferições de organismos internacionais que cuidam de analisarem o consumo de mídias, aí entre jornais impressos, online, revistas, blogs, etc., desse rol de moradores, 10% deveriam ser leitores assíduos ou assinantes desses veículos? Será que os três jornais que circulam em Penápolis e com sede na cidade, têm, juntos 6.500 assinantes ou essa tiragem diária? Acredito que não! Mas por que não? Primeiro é preciso observar se o município tem cultura, o hábito de ler jornais todos os dias e que jornais? Sabe-se que em um país no qual os seus habitantes não mantêm a assiduidade na leitura – basta observar a quantidade de livros que cada brasileiro lê por ano: a problemática começa na escola quando os docentes enfrentam dificuldades em fazer com que os estudantes leiam por ano uma quantidade determinada de livros, romances e poesias por ano – esses terão dificuldades para compreenderem corretamente o mundo que o cerca.

Ainda nessa toada, a coisa fica pior quando os pais tentam interferir no processo, dizendo que as obras indicadas pelos docentes são extensas, ou perguntam qual a utilidade de leituras, por exemplo, dum Machado de Assis, José de Alencar, Aluízio Azevedo, entre outros. Se os pais, de um modo em geral, não estimulam seus filhos a se tornarem adultos leitores, como é que poderão consumir notícias e analisa-las racionalmente fazendo as devidas conexões de sentido? Costumo dizer que, de cada 100 coisas que escuta, o brasileiro ouve 50 e compreende 10, mas quando vai opinar, acha que sabe 100% sobre aquele determinado assunto. No campo das informações veiculadas pelos jornais e demais mídias, é preciso compreendê-las como mercadorias que custam dinheiro, principalmente para serem produzidas, e para se tornarem esses produtos, no sentido marxista da adjetivação, necessitam de outras mercadorias, como jornalistas, máquinas, impressão e demais equipamentos e tudo isso tem um custo para aquele que se dispõe a vendê-las. Nessa lógica capitalista – e não se pode fugir dela -, mesmo porque ainda estamos sob o auspício da relação compra e venda, portanto, não se pode querer receber de graça um produto que custou para ser feito. É comum nesse meio, vir barganhas, escambos semelhantes àqueles que ocorriam na Idade Média e, nessa forma perversa de troca, a primeira coisa que deixa de estampar nas páginas dos jornais são os fatos em si e as reais opiniões sobre o andamento da máquina pública. As matérias e as manchetes, quando não dizem respeito a tragédias e desgraças das vidas alheias – quando não raro somente com os integrantes das categorias de baixo da pirâmide social – são todas ufanando este ou aquele cidadão, ou como dizia a personagem Zeca Diabo do seriado O Bem Amado, escrito por Dias Gomes, “seu dotô-coroné-prefeito”. Esse tipo de postura jornalística tende a cansar o leitor, mas como mudar essa situação? Se a linha editorial do jornal enfatizar um fato, mas se esse desmascara certa conduta, os participantes ligam no dia seguinte cedinho para o editor, ameaça isso e aquilo, quando poderiam usar os dispositivos constitucionais, porém, a prática é outra: se tem assinaturas no jornal, já cortam e se tem anúncios, mandam parar de publicar e nunca mais compram uma “folha”, como diziam os cronistas do Brasil Oitocentista.

Esse tipo de comportamento social externa muito bem a prática provinciana, principalmente quando a peleja envolve política palaciana. Tem-se que publicar tudo que é contra o atual prefeito, mas quando este sai e ai entra outro, não pode manter-se a mesma prática, a mesma pegada crítica, evidenciando que o vergalho que dá em Francisco não pode acertar o lombo do Chico. Assim fica difícil! Quem paga as contas: os anunciantes, os assinantes? Olha que vender uma assinatura aqui em Penápolis dá um trabalhão danado e anúncio então? Não se pode melindrar quem quer que seja. Se a matéria consta nos autos processuais e a condenação foi dada pelo juiz, ou a investigação é conduzida pela polícia civil ou pelo Ministério Público, as pessoas imaginam que quem condenou ou está investigando é o repórter que fez a matéria ou a linha editorial do jornal. Veja bem, meu caro leitor, não estou defendendo os jornais ou a mídia em si, mesmo porque sou editor do meu site www.criticapontual.com.br, e sei das dificuldades que é para mantê-lo no ar, todavia, é preciso observar como as coisas em si e não como gostaríamos que fossem. Se essa imprensa que ai está, não é a que queremos, então qual é? Aquela apregoada por Thomas Jefferson? Sim! Esta deve ser vista como uma mercadoria qualquer, que tem seu preço, portanto, deve se pagar para ser adquirida.

Enfim, para não me alongar muito, me parece que o anseio de todos os cidadãos e suas cidadanias é ter uma mídia livre, sem exageros e, caso isso ocorra, a correção deve ser feita de acordo com os preceitos constitucionais. Se isso é fato, então façamos assim: cobremos dos nossos gestores o que é de alvitre deles, participemos mais da vida na polis; vamos nos inteirar do que a lei diz; não votemos mais a troco de penduricalhos, de gorjetas e sobras de churrascos; deixem de dar carteiradas; abominem em suas existências o famigerado “sabe com quem está falando”; abandonem a prática de puxar o tapete alheio para se dar bem. Medidas simples que podem mudar o cotidiano de uma sociedade, mas que ainda não são levadas a sério e quem procede desta forma é adjetivado de idiota. Assim como você, meu caro leitor, desejo uma mídia e uma imprensa livre, mesmo que com tendência a pender para um dos lados, mas que forneça subsídios para que o seu leitor faça uma análise racional dos fatos ali narrados. No meu fazer semanal de colunista e cronista, busco de todas as formas, a imparcialidade, mas caso eu não consiga chegar a esse objetivo, o meu leitor tem o dever, antes do direito, de me corrigir. É isso ai!

 

BIBLIOGRAFIA

AMADO, Jorge. Gabriela, cravo e canela: crônica de uma cidade do interior. Posfácio de José Paulo Paes. São Paulo: Companhia das Letras, 2008.

___________. Tocaia grande: a face obscura. Rio de Janeiro: MEDIAfashion, 2008.

BENJAMIN, Walter. Sobre o conceito de história. In. ___________. Magia e técnica, arte e política: ensaios sobre literatura e história da cultura. Trad. Sérgio Paulo Rouanet; prefácio Jeanne Marie Gagnebin. 7. ed.  São Paulo: Brasiliense, 1994 (Obras escolhidas, v. 1).

CONSTITUIÇÃO FEDERAL Disponível (http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/constituicao.htm – acessado no dia 17/07/2017 às 17h14).

 

Gilberto Barbosa dos Santos, sociólogo, editor do site www.criticapontual.com.br, professor no ensino superior e médio em Penápolis. Pesquisador do Grupo Pensamento Conservador – UNESP e membro do Conselho Editorial e Científico da revista LEVS-UNESP. E-mail: gilbertobarsantos@bol.com.br, gilcriticapontual@gmail.com, e social@criticapontual.com.br.

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