Memórias de um não povo

Gilberto Barbosa dos Santos

 

Se pensarmos o povo, de acordo com observações feitas pelos cientistas sociais Alice Casimiro Lopes e Daniel de Mendonça – apresentadores do livro A razão populista, do filósofo político Ernesto Lalau -, enquanto uma construção discursiva, portanto, mutável por estar em acordo com as mais diversas experiências populistas, independentemente de critérios ideológicos, o que temos no Brasil? Antes de tentar empreender, na manhã desta quinta-feira uma resposta ou quase isso, permaneço com as sintéticas definições da dupla de intelectuais brasileiros.

Na acepção dos dois pensadores, o povo seria “uma parte da sociedade (da plebs) que visa a se constituir na representação da sociedade como um todo (o populus)”. Dentro dessa acepção, “o povo pode ser o discurso dos mais pobres contra os ricos, dos nacionalistas contra os ‘traidores da pátria’, dos trabalhadores contra os capitalistas e assim por diante. O ponto fundamental é que a articulação discursiva seja capaz de nomear o povo contra o seu inimigo” (LACLAU, 2013, p. 12 – Ed. Três Estrelas). Mas, no caso do Brasil, será que se pode pensar e usar essa breve observação para compreender a Nação que ainda abraça, de forma bem apertada, o período escravagista em que o não ser, isto é, o cativo e todos aqueles que viviam à margem da sociedade liberal-escravista, não tinham voz e quando se dirigiam ao “dono”, sempre o faziam com suas cabeças baixas, conforme Moacyr Scliar mostra em determinado trecho de seu romance Eu vos abraço, milhões (2010).

Outro exemplo claro desse desarranjo Oitocentista e de como o mesmo é mantido até o presente, se encontra na personagem José Dias – o braço público de Dona Glória, mãe do narrador Bento Santiago – personagem do clássico Dom Casmurro (2016). Naquela singular enunciação, Zé Dias sempre faz uso do superlativo quando está no seio do lar de Bentinho e diante da matriarca dos Santiago e do lado dos mais agregados da Casa-grande urbana, ou diz Gilberto Freyre (190-1987), do Sobrado. Em minha linha interpretativa, o agregado se posiciona desta forma para demarcar território num espaço em que os demais serviçais se digladiam para conseguir o quinhão de bênçãos aferidas pela “dona da casa”. Se na ficção é assim, como é no mundo real? Repete as atitudes que recheiam maravilhosos enredos como os machadianos? Parece-me que sim e não é preciso ir muito longe para perceber tal comportamento, principalmente no âmbito das administrações públicas nas quais marejam os tais cargos de confiança aqui e ali, sem que a sociedade encontre ferramentas para barra-los, talvez porque também almeja tais postos.

Posto isto, volto então ao universo das interpelações: quando se fala em povo brasileiro, de qual povo se diz? Para começar a responder a minha pergunta vou reproduzir aqui um trecho de um diálogo mantido com uma conhecida nas redes sociais da internet quando eu lhe disse: “aqui é a terra do não povo governada ideologicamente e idolatradamente por um polvo…” Até ai nada demais, ou seja, o dito não passou de uma oração isolada objetivada apenas para externar a minha indignação com a ausência de cidadania entre os cidadãos que brigam como leões nas páginas da rede mundial de computadores, para no dia seguinte, aceitarem tudo passivamente como se estivessem assistindo a uma parada militar, a exemplo do que aconteceu na madrugada do dia 14 para o 15 de novembro de 1889 quando a Monarquia foi deposta e tão bem retratada do ponto de vista ficcional por Machado de Assis em seu penúltimo romance Esaú e Jacó (1904).

Senão vejamos: afastada Dilma Rousseff (PT) do cargo máximo da nação, por crime de responsabilidade em 2016, de acordo com o que prevê a legislação e as letras frias das leis vigentes no país. Assume o seu lugar, o vice, Michel Temer (PMDB) e o caos que já era grande, tende a aumentar. Durante uma manifestação popular em Brasília (DF), os participantes, não contentes em apenas protestar, atacaram os prédios em que as instituições funcionam. Resultado: as Forças Armadas, leia-se Exército – foram acionadas e na própria canção do Exército existe um trecho que justifica tal atitude do presidente – revista pouco tempo depois e vista como afobada e própria de quem não tem traquejo para lidar com a voz do povo nas ruas. Pois bem, agora tramita no Congresso, via PGR (Procuradoria Geral da República), denúncia contra o peemedebista por corrupção passiva. A história todos já a sabem, então, não vejo necessidade de ficar recontando os fatos, mas apenas traçar um paralelo com Dilma. Se ela cometeu crime de responsabilidade por não ter pedido autorização ao Congresso para exercitar as tais “pedaladas fiscais”, o que podemos dizer do chefe do Executivo Federal que a sucedeu? Contra a petista houve uma batalha campão e uma fratricida disputa, para não dizer renhida, entre “eles” e “nós” – petralhas versus coxinhas – comportamento vergonhoso próprio duma nação sem povo e habitada por um não povo acéfalo de cidadania.

Mas e agora que a situação mudou, já que a petista saiu de cena, existindo politicamente apenas para o seu gueto ideológico, tem-se Michel Temer na berlinda, cujo futuro está nas mãos dos congressistas, o que fazer? Célebre pergunta do líder revolucionário russo Vladimir Ilyich Ulianov, “Lenin” (1870-1924).  Existem aqueles que acreditam que o “povo” irá às ruas protestar e pedir a cabeça do governante máximo, mas há outros que creem que o brasileiro – o não povo – não fará nada, ficando em suas masmorras reclamando da situação econômica do país e de todos os políticos colocando-os na categoria daqueles sujeitos dado a se enriquecerem com o bolso alheio, mas ai tem-se 2018 quando muitos postulantes aos cargos dos legislativos estaduais e federais, bem como os respectivos executivos percorrerão suas paroquias eleitorais prometendo mundo e os fundos para uma plateia avida por migalhas que caem do trono como aquelas arraias miúdas grudadas nas paredes dos castelos medievais, conforme aponta a escrita machadiana presente em Memórias póstumas de Brás Cubas (2016).

Enfim, não será estranho se a patuleia não se movimentar em prol da lisura e para que a aplicação do vergalho político que foi usado em Dilma seja também em Temer, pois desde o início republicano que o Brasil é assim: uma sociedade formada por um não povo, herança que se herdou da época monárquica e do período escravista, no qual o africano não podia reclamar, mesmo quando estava sendo açoitado por um semelhante de infortúnio, de acordo com o que apresentou Machado de Assis no capítulo O vergalho. Ao que tudo está indicando, o presidente da República não é tão inocente assim, conforme deseja fazer a nação acreditar, todavia, é preciso que a investigação aconteça e, a exemplo de Dilma, ele seja afastado do cargo para que os trabalhos sigam com a maior lisura. Mas para isso, a população precisa deixar a categoria de não povo – que há muito dá as caras por aqui – passando à de cidadã que se revolta quando a pátria é ultrajada por corruptos que usam os cofres públicos para se enriquecerem.

 

Gilberto Barbosa dos Santos, sociólogo, professor no ensino superior e médio em Penápolis. Pesquisador do Grupo Pensamento Conservador – UNESP e membro do Conselho Editorial e Científico da revista LEVS-UNESP. Escreve às quintas-feiras neste espaço: www.criticapontual.com.br. E-mail: gilbertobarsantos@bol.com.br, gilcriticapontual@gmail.com, e gilberto_jinterior@hotmail.com .

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