O devir eleitoral

Gilberto Barbosa dos Santos

 

Ao término dos festejos carnavalescos, finalmente começa o ciclo vital no Brasil e com ela, todas as mazelas sociais, fruto dos arranjos e acordos palacianos, sejam em que esfera for da vida pública nacional, conforme já nos alertava o escritor José de Alencar (1829-1877) por meio de seus escritos políticos com forte viés Conservador – levando-se sempre em conta que em sua época havia a dicotomia entre o conservadorismo e o liberalismo tão enfocado pelo romancista realista Joaquim Maria Machado de Assis (1839-1908).

Deixando a Pátria Oitocentista lá com seus literatos e retratistas, e nos voltemos para o aqui e agora! Hoje pretendo tratar de assuntos pertinentes ao presente de nós, os indivíduos. Portanto, peço licença aos meus leitores para mudar o foco da pessoa gramatical nas linhas que se seguem. Se antes, eu primava por um texto, cujo conteúdo não poderia ser subsumido pela e na primeira pessoa do plural, tendo em vista que sempre optei por ficar na primeira do singular. Essa postura enunciativa, a meu ver, é, às vezes, necessária, pois me permite confeccioná-la do ponto de vista do observador que busca estar o mais próximo possível da neutralidade axiológica conforme aponta o cientista social alemão Max Weber (1864-1920) – há quem aponte haver ai uma impossibilidade, contudo não vamos adentrar nessas questões metodológicas, mesmo porque Emile Durkheim (1858-1917) tem uma contribuição significativa quando se pretende entender a problemática do suicídio sob a perspectiva social enquanto anomia social. Nessa linha interpretativa, Karl Marx (1818-1883) tem excelente contribuição para compreendermos a dinâmica do sistema capitalista e de como o capital financeiro se transnacionalizou a ponto de não ficar nenhum vivente longe de suas garras e armadilhas.

Só para não perdermos o fio narrativo, deixemos para outro momento essa discussão sobre metodologia no mundo das Ciências Sociais e enveredemos em outro universo significativo para os humanos brasileiros. Qual seja: a esfera da política! A temática é alvissareira porque em 2018 teremos eleições diretas para presidente da República, Governadores Estaduais, Senadores, Deputados Federais e Estaduais. Desta forma, para que não fiquem blasfemando aqui e ali, meus caros leitores, prestem bastante atenção nos vices dos respectivos candidatos aos cargos do Executivo e, por que não nos deputados federais, pois tudo pode acontecer no campo da Justiça Eleitoral, cujas regras eletivas podem ser modificadas a contento de quem busca manter-se na crista da onda da política nacional, ou seja, os nossos políticos profissionais, mestres em malabarismos demagógicos, linguísticos – como fazia o eterno Odorico Paraguaçu personagem do clássico da teledramaturgia brasileira O bem amado. Por que se deve dar toda atenção no vice? Ora, só para compreendermos o cenário atual da política nacional: quem votou em Dilma/Temer ontem, seja lá por qual motivo for, hoje exibi um sonoro “Fora Temer”!

Até ai nada de mais, mesmo porque estamos numa democracia. Contudo, o que podemos analisar quando recorremos ao filósofo político inglês [jusnaturalista] Thomas Hobbes (1588-1679) e sua obra Do cidadão, publicado pela primeira vez em 1642? É desta obra que extraímos a seguinte observação que será útil para o conteúdo do parágrafo seguinte: “Fora do Estado, tem-se o domínio das paixões, a guerra, o medo. A pobreza, a incúria, o isolamento, a barbárie, a ignorância, a bestialidade. No Estado, tem-se o domínio da Razão, a paz, a segurança, a riqueza, a decência, a sociabilidade, o refinamento, a ciência, a benevolência”. Para completar a primeira interpelação, lancemos outra questão: será que o Estado brasileiro e a disputa pelos seus cargos no Executivo e no Legislativo estão imbuídos da plena racionalidade?

Mas, antes de tentarmos enveredar pelos caminhos labirínticos presentes no excerto acima, percorremos umas pequenas linhas traçadas por outro filósofo político, só que italiano, Giambattista Vico (1668-1744). Para ele, “os homens primeiramente sentem o necessário. Depois cuidam do útil. A seguir do conveniente. Mais adiante, deleitam-se no prazer, dissolvendo-se no luxo. E, por fim, endoidecem ao dissiparem as coisas substanciais”. Essas duas citações nos possibilitam, mesmo do ponto de vista abstrato para uns, e pouco pragmáticos para outros, pensar o homem político dominado em sua inteireza pelo universo econômico, já que não almejam o poder para buscar ferramentas que possibilitem melhorar a vida de seus semelhantes, mas sim objetivando se locupletarem financeiramente a partir da ignorância política dos seus eleitores. Senão vejamos!

Frustradas as tentativas ad infinitum de consumo desenfreado e a concretude de se pensar, ou melhor, integrar-se a tal da classe média, mesmo que para isso seja necessário burlar os índices, criar artificialmente categorias sociais e escancará-las aos quatro cantos do mundo, isto é, do Brasil, para que o desafortunado eleitor se sinta em uma nova condição social – mesmo que seja artificial -, o que restou ao cidadão de pífia cidadania? Protestar? Não! Apenas reclamar que a vida está difícil, no entanto, continuar acreditando que Dom Sebastião voltará, conduzindo sua barcaça carcomida pela corrupção e pelo desejo atroz de se enriquecer por meio dos cofres públicos e outras mutretas, e salvará todos das mazelas sociais e das misérias humanas. Ledo engano, os problemas endêmicos que o país possui não se enterram com decretos e verborragias ocas, seguidas de toscas e farisaicas ideologias edênicas. Essa história de “o sertão vai virar mar” não passa de engodo para fisgar indivíduo sem consciência política que vota, não com a razão – campo do Estado -, mas sim com o estômago – Victor Hugo e o seu Os miseráveis que o diga! Desta forma, usando Hobbes e Vico no mesmo diapasão, se isso for possível, podemos indicar que o Estado hobbesiano está subsumido de forma enviesada no homem de Vico e ai uma mudança significativa no atual quadro político, pelo menos no Brasil, não é coisa para o presente, mas sim para o futuro, pós-consciência política.

Todavia, deixemos as questões apontadas pelo filósofo inglês e pelo pensador italiano para outro momento – e olha que merece uma reflexão mais detalhada: quem sabe meu novo desafio – concentremo-nos em 2018. Meus caros leitores, levando em conta o recente processo político-eleitoral e suas consequências, como é que vocês irão votar? A pergunta é pertinente, porque entendo que podemos pecar pelo equívoco, ou seja, ter dado maioria a um postulante que teve a sua candidatura vetada pela Justiça Eleitoral, entretanto, não podemos errar pela omissão, isto é, deixar de escolher. Talvez a problemática esteja não em escolher, mas transformar o sim numa democracia delegativa e não participativa, pois se a segunda der o ar da graça, como se diz no jargão popular, muitos do que ai se encontram, não estariam de cócoras nos assentos públicos.

 

Gilberto Barbosa dos Santos, sociólogo, professor no ensino superior e médio em Penápolis. Pesquisador do Grupo Pensamento Conservador – UNESP e membro do Conselho Editorial e Científico da revista LEVS-UNESP. Escreve às quintas-feiras neste espaço: www.criticapontual.com.br. E-mail: gilbertobarsantos@bol.com.br, gilcriticapontual@gmail.com, e social@criticapontual.com.br.

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