Choque de gerações

Gilberto Barbosa dos Santos

 

Enquanto, por um lado, a sociedade capitalista, mantida sobre o governo do ego – espalhando pelos quatro cantos do orbe terrestre o seu individualismo exacerbado – está em voltas com muita confusão, começando pelo seu centro irradiador, isto é, os Estados Unidos, por outro, o Brasil mergulhado num fuzuê danado por conta da velha política que resiste ao seu óbito, mesmo porque a cada quatro anos o povo lhe revigora o ânimo concedendo aos seus integrantes mais 48 meses para continuarem mandando e desmandando dentro dos mais diversos palácios e legislativos nacionais. Esse é o quadro que todos, um pouco mais ou menos, são cônscios, portanto, acho que posso mudar o foco da minha prosa nessa quinta-feira.

Já que mudarei o foco da nossa conversa de hoje, meu caro leitor, qual será então a temática? Antes mesmo que eu obtenha a resposta, já vou tecendo breves comentários sobre o seu conteúdo. Que tal se eu tratasse do choque de gerações? Parece-me que o assunto é alvissareiro, principalmente agora que o tempo está mais acelerado do que no passado e todos registrem o passar do existir dentro das 24 horas diárias por intermédio dos seus mais diversos afazeres, objetivando dar conta do recado, tais como família, finanças equilibradas, lazer com os amigos e reserva de um tempinho para si mesmo. Este presente que vos fala, caro leitor, é semelhante aquele em que a personagem Fausto, da obra homônima composta pelo poeta alemão Johann Wolfgang von Goethe (1749-1832) e publicada em 1806, escuta de Mefistófeles a sentença segundo a qual tudo o que existe merece perecer, isto é, a grande catedral do consumo edificado pelos seres humanos se dissolverá no dia seguinte à sua feitura.

Pois bem! Se tudo o que é construído hoje desaparecerá amanhã, então as relações humanas seguem o mesmo princípio, dirão os apressados. Até ai nada de mais, mesmo porque as pessoas se fecham em seus círculos particulares e ali trocam informações, riquezas, sonhos e frustrações. Contudo, basta um deles deixar de existir do ponto de vista do consumo de determinados penduricalhos materiais para não mais pertencer a determinados segmentos, indo parar na eterna fila de espera de alguma coisa, seja lá o que for que esteja aguardando, desde que lhe possibilite retornar para o circuito da gastança e das relações efêmeras. Sendo assim, quem tem medo do futuro tende a se apegar ao passado, ou não? Veja bem: o pretérito é conhecido e o amanhã é um por vir que ninguém sabe como poderá ser, quiçá todos os planejamentos feitos pelo mais racional dos mortais. Desta forma, se ao vir a ser está reservado o acaso, como estabelecer conexão com o momento que se vive e os indivíduos sociais que perambulam pelos recônditos do orbe terrestre, se construindo e se descontruindo, conforme Goethe nos mostra em seu clássico da literatura alemã e universal?

Apresentado esse pequeno prólogo para esta manhã, adentro ao que mais interessa àqueles que se debruçam sobre os meus escritos e jogos de palavras objetivando dar sentido a algo de significativo para aqueles que as leem, não apenas como ferramentas de informação, mas também como mecanismo de entretenimento, pois a leitura é, antes de tudo, um reservatório de lazer, portanto compor um texto requer objetividade e quem sabe um pouco de clareza. Sendo assim, vou direto ao ponto: quem nunca se pegou apreciando o passado, principalmente quando se foi adolescente e viajava num futuro distante que se tornou presente, mas não aquele acalantado outrora? Uma música que rompe o silêncio na noite ou mesmo durante o dia, na fila do supermercado, ou mesmo aqueles de ontem que surgem do nada em vossas frentes trazendo, com seus andares lentos ou apressados, o passado. Surgimento este que sempre proporciona aos indivíduos lembranças guardadas a sete chaves há muito tempo, como se diz no jargão popular, bem lá no fundo do baú existencial.

Até ai nada de mais, mesmo porque foi apenas um lampejo do ontem trazido por uma pessoa que ressurge rapidamente na frente do seu semelhante, cuja presença apenas lhe belisca a memória e se vai como chuva de verão. Dissipando os devaneios trazidos por fantasmas físicos de um longínquo existir, o que se pode dizer quando a relação se dá entre pais e filhos, principalmente se a convivência é pautada pela ausência de diálogo, e quando há, o norte é sempre o da vaidade e da presunção? A resposta a essa interpelação não pretende ser nenhum tratado que vise externar como é ou como deveria ser o nível de intersecção entre pais e filhos, entretanto, objetiva se tornar apresentação dum singelo ponto de vista de quem já foi adolescente – coisa que muitos pais, ao que tudo indica, já não se lembram mais que foram um dia – e hoje se encontra em outra etapa da vida. Portanto, um pouco mais do que a vivência pretérita.

Muitos desses pais podem dizer “na minha época a coisa era diferente”! E claro que não era, principalmente quando se coloca em evidencia o universo tecnológico e as constantes revoluções que ocorrem diariamente nessa área. Por exemplo, nos últimos 30 anos muita coisa foi alterada, acelerando a vida na polis, levando várias pessoas a dizerem que se está vivendo em plena era pós-moderna ou num veloz modernismo que ninguém sabe onde vai dar, pois, Mefistófeles já alerta o Fausto alemão: tudo que existe deve perecer, isto é, deixar de ser como se é ou ter o mesmo glamour de outrora. Ora, se o pretérito de quem o viveu plenamente é deferente do presente de seus filhos, como fazer a mediação? De cima para baixo através de palavras de ordem que se assemelham a mantras entoados por quem pretende ser o detentor da verdade absoluta? Claro que não é desta forma que se deve proceder, mas sim com diálogo que não deve ser iniciado na adolescência dos filhos e sim quando eles começam o processo de socialização primária. Portanto, começar hoje dialogando sobre o que deveria ser o sentido da existência do ser que chegou completando o núcleo familiar. Talvez possa ser tarde se se é adolescente, contudo, ainda é tempo de dar os primeiros passos.

 

Gilberto Barbosa dos Santos, sociólogo, professor no ensino superior e médio em Penápolis. Pesquisador do Grupo Pensamento Conservador – UNESP e membro do Conselho Editorial e Científico da revista LEVS-UNESP. Escreve às quintas-feiras neste espaço: www.criticapontual.com.br. E-mail: gilbertobarsantos@bol.com.br, gilcriticapontual@gmail.com, e social@criticapontual.com.br.

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