Eleição dos EUA: o desprezo versus a arrogância e prepotência

Eder Aparecido de Carvalho

 

Há onze anos leciono aulas de sociologia em uma Instituição de Ensino Superior em Votuporanga. Na última semana não pude deixar de tratar com os discentes um episódio que permeia rodas de conversa desde quarta-feira (09/11). O eixo que norteou o nosso debate em sala de aula: Por que Donald Trump ganhou a eleição para presidente nos Estados Unidos da América (EUA)?

Donald Trump mesmo contra a imprensa e grandes nomes do seu próprio partido derrubou todas as projeções. É coerente dizer que o candidato republicano fugiu do discurso politicamente correto. Diria que destoou dos discursos tradicionais e acabou atraindo muitos eleitores.

O candidato pouco importou com as minorias (imigrantes, mulheres, negros, etc – deixando claro que quando se fala em minorias estamos referindo às relações de poder) e bateu muito no discurso de crescimento dos EUA – tímido na última década.

É possível afirmar que os trabalhadores rurais (principalmente dos estados centrais e do norte) evitaram o partido democrata (partido de Hillary Clinton). Isso porque o governo Obama (apoiador da candidata) não vinha, mesmo com aproximadamente 60% de aprovação, beneficiando os trabalhadores do campo. Diante do exposto e para sorte de Donald Trump os citados estados contribuíram com número de delegados que fizeram a diferença.

Atacando os imigrantes (latinos) colocou em pauta um discurso nacionalista: “uma nação precisa de fronteiras”. Focou na necessidade de um presidente para os americanos. Também, ao seu estilo, demonstrou preocupar com a segurança daqueles que estão inseguros (para não dizer revoltados). Comprometeu fechar as divisas para os muçulmanos a fim de evitar atentados (como se todo muçulmano fosse terrorista ou que apenas estes espalhassem o terror).

Trump também inovou com o discurso da desglobalização (medidas protecionistas): devolver para os americanos os empregos que foram criados, em virtude da internacionalização, em outros países. Muitas fábricas e indústrias americanas criaram trabalhos em países dos mais diversos ao invés de criar no próprio EUA – esse foi o discurso do candidato Donald Trump. Isso sem falar dos migrantes (discurso do republicano) que estão tomando os empregos dos americanos. Deste horizonte vem promessa de criar um muro na divisa EUA com o México.

Campanha nada convencional (presente a xenofobia e o racismo), tanto que enfrentou forças contrárias no interior do próprio partido (republicano). Fato é que o discurso do ódio “colou” e atingiu boa parte do eleitorado. Isso foi providencial para Donald Trump.

Concluindo, é possível desconsiderar todos os elementos citados acima e mesmo assim o milionário Trump teria ganho a eleição. Aliás, diria que não foi Trump que ganhou, mas Hillary Clinton que perdeu. A Sra. Hillary começou a campanha contando com votos dos eleitores de Obama (o presidente tinha boa aprovação e tratava-se do principal cabo eleitoral da candidata democrata). Ao contar como certo os votos de eleitores que certamente votariam em Obama, deixou de lado alguns Estados. Fato é que a escolha não foi das melhores – visto que perdeu o pleito. Por outro lado, Donald Trump visitou Estados onde a derrota era “certa” e acabou revertendo: de derrotado passou para vencedor. Ou seja, o pecado capital de Hillary foi o “já ganhou”. Ou seja, o desprezo abriu portas para o arrogante e prepotente Donald Trump.

 

Eder Aparecido de Carvalho (doutorando em Ciências Sociais pela UNESP) e os discentes da Fac. Futura

 

Disponível no site http://www.diariodevotuporanga.com.br/2016/11/17/eleicao-dos-eua-o-desprezo-versus-a-arrogancia-e-prepotencia/ (acessado no dia 17/11/2016 às 22h37)

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