“Não há nada nos cadernos pretos que possa indicar adesão de Heidegger ao nazismo”

Italiano estudioso dos cadernos pretos do filósofo, Francesco Alfieri defende que eles foram “instrumentalizados” para confundir a opinião pública

Amanda Massuela

 

Desde novembro de 2014 debruçado sobre os cadernos pretos de Martin Heidegger (1889-1976), o professor italiano Francesco Alfieri afirma estar “mais do que convencido” de que não há ligação entre o filósofo alemão e a ideologia nazista. A conclusão vem depois de quase dois anos de estudo sistemático dos cadernos, feito em parceria com o professor Friedrich von Herrmann, último discípulo vivo de Heidegger.

Para Alfieri, as acusações de antissemitismo feitas contra o filósofo são resultado de uma “estratégia engenhosamente posta em ato para gerar confusão”, fruto de insinuações feitas sem rigor científico e amplamente disseminadas pela imprensa. As constatações foram reunidas no livro A verdade sobre os cadernos pretos de Heidegger, publicado em janeiro na Itália e atualmente em fase de tradução no Brasil.

“O livro contém parte da correspondência entre Heidegger e Von Herrmann, além de algumas cartas trocadas com Hans-Georg Gadamer. São documentos que auxiliam a compreender como a instrumentalização de Heidegger não é de hoje, mas acompanha a vida do filósofo desde sempre”, adianta o professor, que no dia 25 de outubro vem a São Paulo para apresentar os resultados dos estudos.

O conteúdo das cadernetas de capa preta em que Heidegger costumava anotar seus pensamentos começou a ser publicado em 2014, com edição do filósofo Peter Trawny. Em entrevistas e artigos, Trawny apontou o caráter antissemita de alguns escritos: “Heidegger não só adotou essas ideias antissemitas, mas as processou filosoficamente, falhando em imunizar seu pensamento dessas tendências”, disse em entrevista ao jornal inglês The Guardian.

Em entrevista por e-mail ao site da CULT, o professor Francesco Alfieri defende exatamente o oposto e afirma que as “hipóteses fantasiosas” do editor alemão, com o apoio da mídia, podem ter influenciado a opinião pública.

 

CULT – Você já afirmou que, logo na sua primeira leitura dos cadernos pretos de Heidegger, entendeu que eles eram “perigosos”. Por quê?

Francesco Alfieri – É verdade, e hoje confirmo o que disse em 2014. São “perigosos” porque se prestam a ser instrumentalizados por quem não conhece o itinerário especulativo de Heidegger. Por sua estrutura fragmentária, os esboços de pensamento registrados nos cadernos pretos iludem o leitor “ingênuo”, dando-lhe a impressão de que o conteúdo desses esboços é compreendido facilmente. Mas não é bem assim…

 

Depois de ter estudado os cadernos, você estaria convencido de que o nazismo de Heidegger é antes um mito construído, e não uma realidade?

Estou mais do que convencido de que as acusações de antissemitismo feitas contra Heidegger são o resultado de uma estratégia engenhosamente posta em ato para gerar confusão e para insinuar que finalmente foram encontradas provas tangíveis do compromisso do filósofo com o nacional-socialismo de Hitler.

 

Então, qual a razão para Heidegger ter mantido esses cadernos em segredo?

Heidegger nunca quis mantê-los em segredo. Essa é uma notícia fantasiosa vendida por Peter Trawny, editor alemão da obra. Heidegger queria que os cadernos fossem publicados quando se tivesse chegado à edição completa de suas obras. Não se trata, portanto, de anotações secretas, porque já se sabia da sua existência, uma vez que o próprio Heidegger remetia a elas em alguns comentários feitos nos seus trabalhos publicados pela editora Vittorio Klostermann.

 

Qual a chave de leitura para entender que o nazismo de Heidegger é um mito?

Não há nenhuma chave de leitura a esse respeito porque não há simplesmente nada nos cadernos que possa dar base para afirmar uma adesão de Heidegger ao nazismo. Aliás, o termo “mito” foi empregado pelo editor alemão dos cadernos pretos, mas a fim de promover as suas próprias e fantasiosas hipóteses, que são desmentidas categoricamente por boa parte da comunidade científica.

 

A interpretação de Trawny pode ter condicionado a recepção dos cadernos pretos entre os intelectuais?

Sustento que as hipóteses fantasiosas do editor alemão, com o apoio da mídia, tenha influenciado a opinião pública. No entanto, há um abismo entre a opinião pública e o trabalho dos intelectuais. Muitos intelectuais preferiram ficar fora desse caos midiático.

 

Trawny afirma enfaticamente que, sim, há passagens antissemitas nos cadernos.Ele também afirma que, assim como muitos europeus nos anos 1920 e 1930, “Heidegger era em algum grau antissemita”, ainda que isso não tenha afetado a sua obra. Como vê essa afirmação?

O editor alemão não deu até hoje “nenhuma prova” do antissemitismo histórico-ontológico de Heidegger. Repito: “nenhuma prova”. Ele apenas insinuou que isso está presente em Heidegger, selecionando algumas passagens das anotações do filósofo com o fim de gerar uma grande confusão (confusão, aliás, alimentada com a ajuda da mídia), na qual tomou parte quem desejava a “todo custo” crer que isso era verdadeiro, sem, no entanto, dar-se ao trabalho de verificar pessoalmente se essas hipóteses eram defensáveis. Creio que o editor alemão tenha dado prova de descuido e do seu pouco rigor científico, coisas que têm ficado claras para muitos leitores atentos.

 

Você já afirmou que não se pode ler Heidegger ou qualquer outro autor com veemência, ressentimento ou com muita paixão, porque isso produz leituras deturpadas. Então de que maneira o leitor pode tomar a distância aconselhável para que possa fazer uma leitura apropriada dos cadernos, tendo em vista seu conteúdo tão polêmico?

Eles precisam ser estudados dentro de um contexto muito mais amplo e complexo, precisamente à luz das grandes obras de Heidegger. Não é adequado deter-se apenas nesses cadernos de anotação e isolá-los do conjunto do trabalho heideggeriano. Quem faz isso demonstra não respeitar o pensamento ontológico-histórico do filósofo. Convém entender até a raiz o conteúdo dos cadernos pretos por meio de um linguajar que se revela como acessível apenas a quem aceita entrar no conjunto da obra de Heidegger.

 

Parece que Hannah Arendt e tantos outros falaram do caráter difícil e perigoso de Heidegger. Concorda com as afirmações?

Hannah Arendt e outros sempre falaram da complexidade de Heidegger pelo fato de o seus escritos não serem facilmente acessíveis, em função de seu vocabulário e da criação de uma nova terminologia que impedia o acesso de “muitos” ao seu pensamento. É preciso, portanto, conhecer a fundo os combates existenciais de Heidegger com base, por exemplo, na sua correspondência. Isso permite descobrir que, se hoje há algo de “perigoso”, ele está do lado da ditadura da opinião pública, marcada pela pretensão de “comunicar sem conteúdos”, bem como do lado de alguns estudiosos que fazem suas publicações sem rigor científico. A verdadeira pesquisa, rigorosa, não está nas mãos de quem segue a lógica do consenso e do ouvir dizer: essas são estradas frequentemente percorridas por quem se serve da filosofia para atingir escopos utilitaristas.

 

A leitura dos cadernos pretos mudou alguma coisa na percepção da obra de Heidegger?

Creio que ela fez amadurecer uma nova consciência nos estudiosos: a “necessidade” de retornar às obras do autor e, sobretudo, a urgência de perceber que sem uma minuciosa hermenêutica, baseada em uma investigação filológica, não é plenamente compreensível o movimento de seu pensamento. Sem esse duro trabalho não se chega a lugar algum.

 Como o seu livro, escrito com o professor Von Hermann, foi recebido na Europa?

Estamos muito contentes com o fato de os especialistas, entre eles o Prof. François Fédier [filósofo francês e discípulo de Heidegger] e muitos expoentes da corrente fenomenológica mesmo fora da Europa – por exemplo, o Prof. In-Suk Cha, da Coreia do Sul – tenham encontrado em nosso livro as chaves hermenêutico-interpretativas para poder chegar a um estudo sistemático dos cadernos pretos. Recentemente recebemos com satisfação a notícia de que as edições Gallimard, com o apoio direto do próprio editor Antoine Gallimard, publicarão a tradução francesa de nosso livro, feita pelo professor Pascal David. Aliás, a tradução já está pronta.

 

Seu livro será traduzido e publicado no Brasil? Quando?

É muito sólida a minha intenção de que este livro seja publicado pela editora Perspectiva, porque desejo que ele seja um sinal de diálogo com a comunidade judaica, à qual fizemos questão de homenagear com a escolha da data de publicação do original italiano, em 26 de janeiro, Dia da Memória. Insisto que quem instrumentalizou os cadernos pretos de Heidegger violou indiretamente a dor da comunidade judaica. A distorção da História, produzida com a instrumentalização dos cadernos pretos, foi por nós denunciada a justo título. Donde o nosso intento de render homenagem à comunidade judaica: é a sua própria recordação de toda a dor sofrida nos campos de extermínio que não pode e não deve ser instrumentalizada.

Colaboração e tradução Juvenal Savian Filho

Disponível no site http://revistacult.uol.com.br/home/2016/10/nao-ha-nada-nos-cadernos-pretos-que-possa-indicar-adesao-de-heidegger-ao-nazismo/ (acessado no dia 14/10/2016 às 00h46)

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