Fazer ciência no Brasil

Gilberto Barbosa dos Santos

 

Fazer ciência no Brasil? Eis a pergunta que direciono aos meus leitores nesta quinta-feira. Parece-me que responder a tal interpelação seja tarefa fácil, pois todos sabem que o país não investe em educação básica e os recursos destinados ao setor são vítimas, quase sempre, de escaramuças da categoria política, interessada em se locupletar, associada aos plutocratas, com o dinheiro público. Se no nível básico, falta quase de tudo, o que dirá então nos extratos superiores? Portanto, se desdobrar a problemática para tentar entender porque aqui as coisas não caminham como deveriam, é possível apontar que a atividade não requer exercício hercúleo objetivando analisar os motivos, as causas que indicam níveis baixíssimos no tocante a educação nacional. Se isso é fato, então não é de se espantar quando a mídia nacional informa que a neurocientista brasileira, Suzana Herculano-Houzel, trocou seu trabalho na UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro) por uma universidade norte-americana.

Se atuar enquanto pesquisador nas áreas biológicas e de exatas já parece ser um sacerdócio, o que dizer então quando se busca trabalhar com as chamadas Humanidades? Aqui, a questão se torna mais emblemática, já que é muito comum ouvirmos pessoas, talvez sem o devido conhecimento sobre o assunto ou, se são portadoras de tais preceitos deveriam observar com a devida acuidade certas nuanças do mundo científico, mais especificamente nos processos metodológicos, pois conforme nos aponta o cientista político Bolívar Lamounier em seu texto Reflexões sobre o futuro da política e da democracia, que integra o livro Ciências Sociais na atualidade: tempo e perspectiva, escolher um método de análise significa, observar se o mesmo corresponde aos objetivos propostos pelo pesquisador. Desta forma, podemos apontar três principais correntes que escudam trabalhos nas chamadas humanidades: o método dialético, isto é, o materialismo dialético – cujo principal nome é Karl Marx; os tipos ideais ou Sociologia Compreensiva – Max Weber e o funcionalismo de Emile Durkheim. Mas há outros, por exemplo, o edificado por Karl Mannheim – Sociologia do Conhecimento, entre outros tantos, contudo, me parece salutar ressaltar aqui a complexidade de se fazer ciências sociais e humanas num país em que as pessoas confundem objeto de pesquisa com o sujeito que pesquisa e os interesses depositados nos resultados que as investigações ofertam, não somente a quem se debruça sobre o assunto, mas para a sociedade de um modo geral.

Posto isso, de forma introdutória, vamos ao que interessa, isto é, o sacerdócio de ser pesquisador no Brasil. Para iniciar a nossa jornada, acho interessante enfatizar aqui que, durante a graduação em Ciências Sociais, iniciada no começo da década de 90 do século XX na UNESP – campus de Araraquara, eu desenvolvi alguns trabalhos que, quiçá as dificuldades enfrentadas para obter dados que confirmassem minhas teses, acabaram indicando comportamentos sociais posteriores. Entre essas abordagens, destaco uma em que, usando o conceito de lumpemprolatariado, cunhado por Karl Marx em seu livro O 18 Brumário, apontei que no futuro, Penápolis poderia ter graves problemas sociais em virtude da falta de investimento na qualificação da mão de obra. Os desdobramentos chegariam ao universo da segurança. Apontei isso em 1991, e passados, 25 anos o que temos? Não precisamos de nenhum esforço para entender o quadro dantesco em que a sociedade local se encontra hoje, contudo, se ontem fazer ciência social era complicado, no momento, se torna mais emblemático ainda mais quando sujeitos fora do habitat tentam atribuir ao pesquisador certos valores ideológicos como forma de definir quem investiga objetivando rotulá-lo.

Quando me debruço sobre as questões metodológicas, sempre me recordo das aulas que tive com o sociólogo Octávio Ianni (1926-2004) na disciplina Teorias da Globalização que ele ministrou no IFCH (Instituto de Filosofia e Ciências Humanas) da UNICAMP (Universidade Estadual de Campinas) em 1994. Ele sempre nos falava que o desafio do cientista social não era apenas abraçar um credo metodológico para dar respostas aos desafios que a globalização colocava aos intelectuais, mas sim compreender como Durkheim, Marx e Weber – a trindade sociológica – poderiam ser utilizados para analisar as mudanças na vida social provocadas pela internacionalização do capital, sobretudo o financeiro. Lógico que todos os estudantes tentaram buscar saídas para as mazelas ocasionadas pela globalização da vida humana e, eu não deixei por menos: fui buscar ferramentas metodológicas que pudessem apontar em que medida o mundo global de mercadorias poderia ser útil para, dentro de sua própria essência, indicar alternativas ou mudanças no comportamento humano, cujas consequências seriam um novo amanhã.

“A globalização é isso ai!”, nos dizia Ianni semanalmente. Depois de categorizar esse preceito, colocava-se a expor como o mundo se tornou geral, local, micro e macero geral, global e todas as nações e seus respectivos estados se redefiniam a cada trebelhar do mundo financeiro. Qual metodologia poderia ser utilizada, conforme Bolívar Lamounier, para respaldar as minhas inquietações de cientista social naquele momento e no presente? Usar O Capital seria significativo, contudo, o próprio mundo mercadológico e seu funcionamento abordado no primeiro capítulo A mercadoria, transformou as teses em objeto de consumo da intelectualidade, bem como suas interpretações. Contudo, ali encontramos observações pertinentes para se pensar a realidade a partir das transformações perpetradas pela sociedade desde o advento da Revolução Industrial. Sendo assim, forneceu-me significativos referenciais para compreender o sistema capitalista, associado à leitura da obra do próprio Marx: Formações econômicas pré-capitalistas, á qual indica que um modo de produção, quando elimina o seu antecessor, o faz porque nasceu dentro do sistema que será superado pelas novas formas de exploração. Sendo assim, o feudalismo apareceu em virtude da decadência do escravismo e, por conseguinte, o capitalismo é oriundo da decadência do sistema feudal. Há quem aceite essas teses e existem aqueles que são contrários, contudo, esses paradoxos interpretativos fazem parte do processo de produção científica no mundo das humanidades.

De Durkheim, eu absorvi especificamente o conceito de “anomia” que pode ser sintetizado como indicativo de ruptura usado pelo pensador francês para entender a passagem da Solidariedade Mecânica para a Orgânica e também para compreender o suicídio enquanto fato social e não em sua perspectiva psíquica. Sendo assim, apontei que os fenômenos globais, em que tudo se transforma em mercadoria, provocam rupturas com certos preceitos éticos e morais que os sujeitos sociais herdam de seus antepassados. De Max Weber e sua Sociologia Compreensiva fiz uso da tipologia e da ética racional de conduta que ele absorve do filósofo alemão Immanuel Kant, mais especificamente dos imperativos categóricos e hipotéticos associados aos preceitos protestantes. É deste último que fiz uso para explicar que, segundo a visão weberiana escudada no surgimento do protestantismo e do luteranismo, como houve uma ética de conduta responsável pelo desenvolvimento do capitalismo, haveria a necessidade de, no presente, elaborar uma conduta semelhante, visando à melhoria da qualidade de vida das pessoas, ou seja, uma ética racional de solidariedade adotada pela sociedade como ferramenta para proteger os sujeitos sociais dos aspectos mais perversos da globalização das relações humanas.

 

Gilberto Barbosa dos Santos, sociólogo, professor no ensino superior e médio em Penápolis. Pesquisador do Grupo Pensamento Conservador – UNESP e membro do Conselho Editorial e Científico da revista LEVS-UNESP. Escreve às quintas-feiras neste espaço: www.criticapontual.com.br. E-mail: gilbertobarsantos@bol.com.br, gilcriticapontual@gmail.com, e social@criticapontual.com.br.

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