Escrevendo pelas margens

Gilberto Barbosa dos Santos

 

O ato da escrita é muito mais do que brincar com as palavras a partir de seus semas que se transformam em signos, cujas interpretações variam de região para região e de cultura para cultura, bem como as questões alusivas aos fonemas e as intensidades sonoras com que os termos são propalados passando de substantivos para adjetivos e suas qualificadoras. Se essa ação por si só já é um exercício complexo, mesmo para aqueles que estão diante do papel, ou melhor, como dizia o filósofo inglês John Locke ao fazer alusão ao ser humano, duma tabula rasa que precisa ser preenchida a partir das experiências dos sujeitos – dai o seu empirismo -, imagina então o tamanho da tarefa daquele que se propõe a dizer algo a alguém, usando o quadro e o contexto linguístico, para não dizer socioeconômico e político? A situação ganha dramaticidade se o referencial inicial é a observação feita pelo escritor George Orwell, segundo a qual “jornalismo é publicar aquilo que alguém não quer que se publique. Todo o resto é publicidade”!

Posto isto, penso ser significativo informar aos meus leitores semanais que esse é o assunto que me proponho a desenvolver nas linhas que se seguem, ou seja, lhes ofertar subsídios para que possam pensar sobre tudo, sobretudo o nada também, pois nem sempre o indivíduo está com a cabeça conectada com os acontecimentos socioeconômicos e políticos da polis – não a grega, mas o orbe onde todos residem, isto é, as cercanias e os limites geográficos onde existimos, trabalhamos na busca da concretização de nossos anseios, muitos deles acalentados no silêncio da intimidade individual. Sendo assim, é possível acrescentar, conforme nos legou o semiólogo italiano Umberto Eco em seu livro Seis passeios pelo bosque da ficção, que “[…] todo texto é uma máquina preguiçosa pedindo ao leitor que faça uma parte do seu trabalho”. Esse complemento só pode ocorrer a partir de outras leituras que – no dizer do escritor francês Marcel Proust em sua obra Sobre a leitura – seriam capazes de abrir-nos portas que sem esses exercícios, as maçanetas se quer girariam e o agente não poderia ouvir o ranger das mesmas, nos levando a um universo, quem sabe, nunca antes acessado, para usar um termo do mundo do internauta.

Por exemplo, como compreender o nosso passado conservador sem percorrer as páginas ficcionais de José de Alencar, Machado de Assis e Aluísio Azevedo – para ficar apenas nesses três literatos do Brasil Oitocentista, sendo que o primeiro pertencia ao romantismo literário, o segundo flertou com a linha de Alencar, mas se consagrou no realismo e o terceiro pertence ao universo do naturalismo -? Como enveredar pelos caminhos do Nordeste brasileiro sem ler as pérolas compostas por Jorge Amado, escritor de Tocaia Grande e outros singulares romances como Seara Vermelha? Posso começar a responder a essas interpelações a partir duma conversa que, recentemente, mantive com um amigo sobre a singularidade textual das enunciações machadianas. O diálogo começou quando tentávamos imaginar o autor de Dom Casmurro escrevendo suas crônicas para os jornais cariocas no Brasil monárquico, no qual a capital da Corte era composta, em sua maioria, por escravos, seus descendentes e africanos alforriados sendo regidos sob a batuta dum liberalismo às avessas, cujas consequências são sentidas até hoje – e não adianta os defensores duma tal esquerda, quase que esquizofrênica, dizerem que pretendem mudar o quadro, pois o que se vê são esses agentes políticos engalfinhados, por intermédio de uma casta de burocratas aristocratizados, com a plutocracia que sempre sangrou os cofres públicos ferindo de forma letal os anseios do homem de hoje que objetivava um amanhã diferente do presente vivenciado – já tratei dessa temática uma quantidade infindável de vezes.

Mas voltando ao meu escopo na manhã de hoje, qual seja, o de tentar entender o árduo ofício de abordar a partir duma escrita sem um viés ideológico – mesmo porque quando se pretende dizer algo já se escolheu a temática e ai é uma questão de interesse particular, contudo, o sentido a ser dado ao que se pretende dizer não deve estar contaminado pelo desejo pessoal, eis a grande dificuldade daqueles que querem fazer profissão de fé com algo que deve ser passado com uma boa quantidade de isenção, contudo, isso só é possível quando se compreende a parte como elemento fundamental de um todo, isto é, enquanto consequência de atos pretéritos que devem ser analisados racionalmente. Desta forma, volto a Machado de Assis para tentar entender o árduo ofício de se dizer algo por meio da mídia nacional, como ele tentou fazer várias vezes durante a sua vida de folhetinista, escritor, contista e cronista, sem deixar de lado o seu legado poético e de teatrólogo, bem como de crítico literário! Se no passado, ele usava do expediente da ironia e lançava mão de metáforas que lhe davam liberdade para enunciar o que objetivava apontar para os seus leitores – que não eram muitos levando em conta o grau de analfabetismo daquela sociedade repleta de escravos e seus descendentes -, como ele escreveria hoje, levando em conta o que disse certa vez Walter Benjamin: “o cronista que narra os acontecimentos, sem distinguir entre os grandes e os pequenos, leva em conta a verdade de que nada do que um dia aconteceu pode ser considerado perdido para a história”?

A partir desse excerto do filósofo frankfurtiano, fica evidente que a tarefa de escrever sobre o presente, levando em conta o passado, torna-se complexo, pois, assim como o autor de Helena – cuja heroína morre ao se recusar a viver de favor na casa do amado – apontar as mazelas da sociedade contemporânea, é um desafio que somente pode ser enfrentado por intermédio de diversas figuras de linguagem, como a ironia que recheia os textos de um dos mais nobres nomes da literatura brasileira. É preciso levar em conta o momento em que ele vivia e sua condição social, mesmo o literato dizendo que a arte não deve ser utilizada para manifestações ideológicas, contudo, as suas enunciações me permite desvendar um quantum significativo deste passado conservador, em que duas legendas se debatiam para se manter no alto do governo monárquico, ou seja, os liberais – luzias – e os conservadores – saquaremas.

Contudo, se se exprimir através da imprensa no Brasil Oitocentista era complicado, porém, o cronista não abriu mão de fazê-lo, mesmo tendo um número reduzido de leitores a quem se dirigia como carapicus, no hoje brasileiro, mesmo com a abertura democrática e a Constituição Federal garantindo aos cidadãos o direito de obterem informações, principalmente sobre os bastidores da política, seja em que plano for, isto é, local, estadual e nacional, nos parece um exercício de semântica, pois se deve apontar não o que o governante quer que o povo saiba, mas, sobretudo aquilo que o cidadão precisa saber para escolher melhor os seus representantes, o resto, como diz o escritor George Orwelll utilizado no início dessa reflexão: é publicidade, portanto, objetivando ludibriar o eleitorado visando à perpetuação no poder e posar para os holofotes, mesmo que o reflexo da luz não corresponda ao real, conforme Platão nos apresentou por meio de sua reflexão conhecida como alegoria da caverna presente no livro A República.

 

Gilberto Barbosa dos Santos, sociólogo, professor no ensino superior e médio em Penápolis. Pesquisador do Grupo Pensamento Conservador – UNESP e membro do Conselho Editorial e Científico da revista LEVS-UNESP. Escreve às quintas-feiras neste espaço: www.criticapontual.com.br. E-mail: gilbertobarsantos@bol.com.br, gilcriticapontual@gmail.com, e social@criticapontual.com.br.

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