José de Alencar e o Brasil do século XXI

Gilberto Barbosa dos Santos

 

O escritor e político conservador cearense, José Martiniano de Alencar (1829-1877), durante a sua vida profissional e literária, se envolveu em diversas polêmicas, inclusive com o Imperador D. Pedro II para quem enviou uma série de missivas intituladas Cartas de Erasmo – que podem fazer alusão ao filósofo Erasmo de Roterdã [autor do clássico Elogio da loucura]. Quiçá o seu edenismo – quem pretende saber mais sobre essa questão recomendo o livro Visão do paraíso, do pensador brasileiro Sérgio Buarque de Holanda – não se pode debruçar sobre a escrita de Alencar buscando apenas os significados por trás dessas desavenças com o Trono. É preciso ir mais além, ou seja, entender como o mundo real e o que o literato pensava sobre ele e, em que circunstâncias, sua visão de mundo evidencia-se em sua ficção romântica. Ou seja, como o concreto e o fictício se intercambiavam sob a pena alencariana.

Sendo assim, creio que um dos problemas que levou – para muitos – o fundador da literatura brasileira e seu indianismo a entrar em conflito com as autoridades monárquicas da época, tenha sido mesmo a questão escravista. Para José de Alencar, a extinção do trabalho servil no Brasil não deveria ocorrer pelo alto, isto é, por intermédio duma intervenção governamental – naquele momento – meados da década de 60 do século XIX – monárquico. O político acreditava que o sistema servil seria eliminado na medida em que as relações entre os cativos e seus “senhores”, fossem se civilizando a partir do momento em que o elemento africano compreendesse a importância que o contato com o “branco” lhe aferiria no processo civilizatório. Essa observação pode ser conferida também da leitura do livro Política, de Aristóteles.

Essa visão de mundo de Alencar evidencia um grau elevado de paternalismo, pois, tendo-a como pressuposto, é possível entender que, para o político conservador monarquista, o cativo sempre estaria na condição de “dependência” ao seu senhor, já que este o teria ajudado a abandonar sua inferioridade ressaltada pela condição de escravo. Se formos analisar a problemática servil, compreenderemos que, desde a Grécia Antiga somente seria escravizado aquele sujeito que não tivesse condições de se manter, seja economicamente ou socialmente. Nesta chave é possível acrescer também os homens que figurassem como espolio de guerra, isto é, pertencessem aos exércitos derrotados. Sendo assim, somente os perdedores estariam nessa condição, portanto, sem cidadania quando a questão diz respeito à democracia ateniense. Desta forma, ao estudar, mesmo que de forma lacônica a história do continente africano, pode-se encontrar algumas respostas sobre a escravidão que escudou a economia colonial e posteriormente a do reino luso-brasileiro até 1888.

Claro que os anseios do político Alencar não foram correspondidos pelo Trono por vários fatores, mesmo sendo um dos desejos do escritor estruturado nos princípios liberais – invertidos no Brasil, conforme o crítico literário Roberto Schwarz já demonstrou em seu trabalho As ideias fora do lugar. As consequências foram as infindáveis rusgas com o Monarca que, muitos pesquisadores, atribuem a não indicação do então deputado a uma vaga no Senado Imperial. De qualquer forma, acredito que a pendenga com D. Pedro II vale estudos aprofundados, como o empreendido pela cientista social Joyce Nathália de Souza Trindade que, em 2014, defendeu sua dissertação de mestrado José de Alencar e a escravidão: necessidade nacional e benfeitoria senhorial. A pesquisa foi empreendida na Escola de Filosofia, Letras e Ciências Humanas que compõe a Universidade Federal de São Paulo, campus de Guarulhos.  Além desse, há outros artigos, livros e trabalhos acadêmicos de significativa singularidade.

Diante do que foi exposto até o momento, o leitor deve estar querendo saber por que tratar de José de Alencar e suas polêmicas com o Imperador no Brasil Oitocentista, quando a Nação, nestas primeiras décadas do Terceiro Milênio, passa por sucessivas mudanças, provocadas por crises e corrupções que parecem não ter fim, já que a classe política, seja em que rincão brasileiro for, está atolada até o pescoço com os integrantes da plutocracia brasileira, cujos tentáculos abraçaram hermeticamente a burocracia que, no seu nascedouro, tem profundos vínculos com a aristocracia e a empodrecida nobreza lusitana? Acho que nada! Talvez eu tenha escolhido José de Alencar como tema da reflexão de hoje por diletantismo, ou talvez pela falta de assunto, conforme diria um dos narradores e cronistas machadianos. Entendo que o possuidor dessa visão deve ser respeitado por este que vos dirige a escrita nesta manhã de quinta-feira, contudo, o meu escopo hoje, ao trazer o autor de O tronco do ipê para a mesa do café da manhã de meus leitores – já que muitos leem o jornal enquanto degustam seus dejejuns – é auxiliá-los a compreender uma das relações mais complexas do Brasil Oitocentista que, lamentavelmente, com outras nuanças, continuam a dar o ar da graça – como se diz no jargão popular – nessa segunda década do século XXI: o paternalismo e o desejo que muitos escravagistas oitocentistas, de acordo com enunciações machadianas e históricas, acalentavam em ver a cordialidade expressada pelos seus súditos escravizados numa visão onírica do “beija-mão” imperial.

No capítulo Batuque, do romance O tronco do ipê, de Alencar, o leitor atento se deparará com o diálogo entre duas personagens que conversam sobre a situação dos escravos na fazenda dum conselheiro monárquico. Um dos interlocutores chama a atenção do seu ouvinte sobre as condições em que os cativos viviam, porém, recebe como replica que a sua observação não passava de utopias sentimentais. É significativo observar que a questão em tela diz respeito ao fato de que um dos visitantes ter dito, para cair nas graças do escravagista e com isso angariar apoio à sua campanha política. “- Eu queria […] que os filantropos ingleses assistissem a este espetáculo, para terem o desmentido formal de suas declamações, e verem que o proletário de Londres não tem os cômodos e gozos do nosso escravo”.

É preciso ressaltar que o trecho é uma pequena citação dessa enunciação que apresenta ao leitor do século XXI como um dos nomes mais importantes da literatura brasileira – ligado ao Partido Conservador – transpunha para a ficção a sua visão de mundo. Entretanto, quiçá o enredo estar no plano abstrato, ele pode proporcionar significativa reflexão sobre o Brasil que foi pensando no século XIX quando emergiu a República sem, no entanto, debelar as consequências duma sociedade escudada no escravismo, no desmerecimento do cidadão pertencente à outra etnia e portador de uma tonalidade de pele diferente da de seus conterrâneos, além de ter sido trasladado para cá contra a própria vontade. Contudo, como diz certa vez um intelectual de grande nomeada e contribuição mundial para questões alusivas ao universo das ciências humanas: é muito difícil mudar a consciência daqueles que, desde o berço, aprenderam que podem ser melhores do que seus semelhantes por estarem no alto dum castelo escudado em areia e aleivosias eleitorais. Porém, a dificuldade na mudança não significa anuência daqueles que são vilipendiados e ultrajados no presente! É preciso atuar para que as gerações futuras não sejam humilhadas só porque se recusam a viver das migalhas que caem do alto do trono, como queria José de Alencar e, conforme Machado de Assis demonstrou várias vezes, através de suas ficções, a pequenez dessas atitudes.

 

Gilberto Barbosa dos Santos, sociólogo, professor no ensino superior e médio em Penápolis. Pesquisador do Grupo Pensamento Conservador – UNESP e membro do Conselho Editorial e Científico da revista LEVS-UNESP. Escreve às quintas-feiras neste espaço: www.criticapontual.com.br. E-mail: gilbertobarsantos@bol.com.br, gilcriticapontual@gmail.com, e gilberto_jinterior@hotmail.com .

 

One thought on “José de Alencar e o Brasil do século XXI

  1. Olá, Gilberto.
    Fico contente em saber que minha dissertação foi útil para sua análise.
    Gostei bastante do artigo. Acho que nós que gostamos de estudar Pensamento Social temos diante de nós um prato cheio quando tentamos fazer paralelos com os dias de hoje. É um desafio e tanto, e muitíssimo interessante.

    Abraço!

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