As crises e suas significações

Gilberto Barbosa dos Santos

 

Para não ocupar em demasia o tempo dos meus caros leitores nesta manhã de quinta, pois em períodos de crise, todo espaço deve ser aproveitado para encontrar caminhos e criar mecanismos que possam fazer com que os sujeitos sociais e políticos consigam dar novos significados às suas existências materiais e ideológicas. Sendo assim, vamos aos fatos que podem nos possibilitar dar sentido aos mundos que nos cercam: de onde advêm as dificuldades que pairam sobre Brasília com resquícios nos demais estados, cercanias e logradouros? Não precisa ir muito longe para afirmar-se que a questão é emblemática, mas tem endereço certo: Governo Federal que seria o responsável pela elaboração de políticas públicas a partir de pressupostos macroeconômicos, mesmo com alguns, para não dizer todos – pois a unanimidade seria burrice conforme apontou certa vez um literato brasileiro – asseclas vociferando que o cidadão comum não estava interessado em saber dessas coisas e sim se a prestação, a ser quitada mensalmente, estava dentro do que pensava ser orçamento familiar. Não preciso dizer mais nada, pois todos são cônscios das problemáticas advindas desses estímulos populistas e farisaicos.

Outros dirão que este que vos escreve é contrário aos indivíduos pertencentes aos estratos inferiores da sociedade, ou seja, os pobres. E que estes não devem sonhar com uns aparelhos eletrodomésticos e algumas parafernálias tecnológicas. Isso me reporta a uma entrevista concedida pelo teatrólogo Antunes Filho para uma revista de circulação nacional sobre a arte e a dramaturgia e a geração de novos atores oriunda do teatro. Eis que o dramaturgo apontou uma série de bons atores que apareceram a partir das oficinas promovidas por ele num teatro duma entidade classista na capital paulista. Até ai nada de mais e sem muita significância para o brasileiro médio, isto é, aquele que não tem afeição pela arte ou seu interesse é ínfimo. Contudo, o meu escopo nas observações de Antunes Filho reside no fato de que este dizia que não conseguia manter os talentos gerados no tablado teatral porque tais atores precisavam comprar uns penduricalhos para dar sentido às suas existências e também para fugirem da certeza de suas finitudes, representadas pela visita da morte que poderia demorar a chegar, mas afinal viria algum dia.

Poderia me alongar nessa assertiva, inclusive acrescentando observações feitas aqui mesmo nessas páginas há certo tempo sobre o “Ser e a sua finitude” – tais considerações foram grafadas a partir da leitura da obra O ser e o tempo, do filósofo alemão Martin Heidegger conluiada com o livre Heidegger réu, do pensador croata e professor aposentado da UNICAMP, Zeljsc Loparic -, contudo optei por não percorrer este caminho, considerando que o sentido, bem como seus significantes, não teria espaço no momento, pois objetivo apenas tecer alguns comentários sobre as crises que assolam o Brasil, sobretudo no âmbito moral e ético no que diz respeito ao universo da política com severos desdobramentos no mundo econômico e, por conseguinte, ao cidadão, dito comum, que trabalha arduamente esperando tornar-se o Ser apontado por Kant – outro filósofo alemão – segundo o qual o sujeito nunca é, já que vive o eterno vir a ser. Dito de outro: o presente na vida do homem é mero detalhe, já que assombrado pelas memórias e pelo passado que tendem a manter-se no hoje, foge do momento escondendo-se no futuro que ainda não é e, pode-se dizer, nunca será – mas ai é outra coisa, para a atualidade devo me concentrar nas crises e seus significados.

Se se é desta forma, então que venha o sentido subsumido no título do artigo de hoje, ou seja, a origem – se for possível detectar a gênese de tais problemáticas – das sucessivas dificuldades que afetam diretamente o trabalhador – seja ele do chão da fábrica ou o de colarinho branco empregado das sociedades anônimas e conglomerado construídos a partir das ações nas Bolsas de Valores globalizadas. Somente em termos de recordação, já apontei aqui nessas páginas, em um tempo não muito pretérito, que qualquer oscilação no mundo produtivo tem consequências nevrálgicas para o proletário – se é que ele ainda existe conforme acepção dada por Karl Marx – e desta maneira, no consumo, com desdobramento nas vendas e arrecadações tributárias. Portanto, queda no ingresso de recursos nos cofres públicos significa redução nas políticas públicas disponibilizadas ao cidadão que, após perder o emprego, força cada vez mais as demandas pelos serviços ofertados pelo Estado – numa espécie de eterno retorno bem a lá Prometeu – ser mitológico que tinha seu fígado devorado durante 12 horas por uma ave de rapina e nas outras 12 horas o órgão se regenerava. Contudo, se o leitor, que percorre essas linhas, deixar, por um momento, o universo mítico de lado, se concentrando no plano concreto de sua existência, compreenderá que a ave de rapina que devora os recursos públicos durante o dia, para exigir mais do trabalhador a noite, não é senão o seu representante no Executivo e no Legislativo, ou seja, o político que vive prometendo e vociferando que se eleito for, fará muito mais, mas quando toma conta do principal assento dum orbe – que bem pode ser a Terra de Maria Chica – diz que não há recursos, entretanto, compra área com recursos públicos para ceder a uma empresa na esperança de que irá gerar mais trabalho no futuro. Desta forma, o cidadão confirma aquilo que Kant disse: o homem nunca é, vive sempre a expectativa de ser um dia.

Se a coisa funciona dessa maneira – corrija-me caro leitor [meu endereço eletrônico encontra-se no final dessa reflexão] – como pensar o futuro e como suportar as vicissitudes, deixadas de presente no presente por eleitores incautos e desavisados? Eis o simples questionamento desta manhã! De qualquer forma, tentarei, nas linhas que me restam, apontar caminhos, principalmente ao funcionalismo público que amargará mais um ano sem reajuste salarial enquanto o Ministério Público investiga uma série de irregularidades que lhe foram apontadas por três representantes da população no legislativo local. Ah! Não se pode perder de vista os valores pagos com horas-extras no ano passado, mesmo com o prefeito dizendo que iria vetar esse tipo de prática, mas isso já não é com este que vos escreve meu caro leitor, e sim com os eleitores que terão novamente a chance de reparar o erro cometido há quatro anos quando delegou ao atual alcaide 48 meses de governo e os fatos dizem tudo, portanto, creio ser desnecessário criar aqui um rosário escaldante dos equívocos cometidos durante esses 36 meses desta gestão que ai está!

De qualquer forma, entendo que a crise tem significado diferente para ti, servidor público e para o vosso patrão do momento. Senão vejamos: num passado não muito remoto, quando o prefeito era outro, dar aumento salarial sempre era possível e as assembleias dos funcionários eram tomadas por líderes politiqueiros que incitavam as massas trabalhadoras a constantes rebeliões contra o empregador-prefeito. Contudo, bastou ser governo para que os canhões, sempre apontados para o gestor da época, se calassem em um silêncio sepulcral. Durmam com um barulho desses servidores, ou melhor, com uma crise dessas que, mesmo assombrando o atual chefe do Executivo, este ainda quer manter-se no poder, firmando pactos e explodindo legendas alheias.

 

Gilberto Barbosa dos Santos, sociólogo, professor no ensino superior e médio em Penápolis. Pesquisador do Grupo Pensamento Conservador – UNESP e membro do Conselho Editorial e Científico da revista LEVS-UNESP. Escreve às quintas-feiras neste espaço: www.criticapontual.com.br. E-mail: gilbertobarsantos@bol.com.br, gilcriticapontual@gmail.com, e gilberto_jinterior@hotmail.com .

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