Processos alegóricos na obra de Machado de Assis: ocorrências no conto “Um apólogo”

Machado de Assis

Arquivo/Internet: Machado de Assis é considerado um dos maiores escritores do Brasil

 

Gilberto de Assis Barbosa dos SANTOS[1]

 

 

 

RESUMO: O presente artigo tem como finalidade analisar os processos alegóricos presentes na obra machadiana, especificamente no conto “Um apólogo”, publicado no livro “Várias Histórias”, editado pela primeira vez em 1896. Para tanto, utilizei o conceito de alegoria imperfeita, segundo a qual, o discurso permite uma compreensão mais rápida por parte do leitor do objetivo do autor do texto, além da definição do que vem a ser “apólogo” que nomeia a obra.

 

PALAVRAS-CHAVE: Machado de Assis, Literatura, Escravidão, Alegoria

 

 

ABSTRACT: The respective publishable paper attempts to analyse the allegorycal process presented in the Machado de Assis’ masterpiece, specifically on the tale “An appolog” whom was published on the book “Several Stories” edited by first time in 1896. However, I have used  the imperfect allegoric concept, according to, the speech permits a faster understanding in part with reader, beyond of definition, whatever the terminology  “appolog” means and what it pass to give names on the text.

 

KEY-WORDS: Machado de Assis, Literature, Slavery, Allegory

 

 

 

Pretendo neste artigo analisar o processo alegórico utilizado por Machado de Assis para demonstrar ao leitor do conto “Um apólogo” que havia uma diferenciação entre os negros que trabalhavam como escravos na casa-grande realizando diversas tarefas, como ajudar na cozinha onde as refeições eram preparadas para os patrões ou como damas de companhia – mucamas[2] – às “sinhazinhas” ou nos passeios pelos campos[3] e aqueles que trabalhavam na lavoura.

Para que o objetivo seja alcançado, parece-me salutar tecer alguns comentários sobre o texto do ponto de vista literário, tais como as características peculiares do conto, do narrador e em seguida, definir, mesmo que laconicamente o que vem a ser alegoria enquanto categoria interpretativa e como ela aparece nesse trabalho de Machado de Assis, publicado em 1896 pela primeira vez como parte integrante do livro “Várias Histórias”. Para essa investigação estou usando a edição de 2004 da editora Martin Claret.

Como primeira tarefa analítica a que me proponho, cabe aqui definir o que compreendo por conto, principalmente no que tange à sua organização estrutural. Utilizo-me das considerações tecidas por Julio Cortazar, para quem a forma de narrar uma história através desse procedimento é entendida “como uma máquina infalível destinada a cumprir a sua missão narrativa com a máxima economia de meios” (CORTAZAR, 1993, p. 228). Nessa perspectiva, ele diz que essa noção de pequeno ambiente que o leitor encontra em um conto pode ser definida do ponto de vista estrutural como forma fechada ou esférica, na qual

 

[…] o narrador poderia ter sido uma das personagens, vale dizer que a situação narrativa em si deve nascer e dar-se dentro da esfera, trabalhando do interior para o exterior, sem que os limites da narrativa se vejam traçados como quem modela uma esfera de argila. Dito de outro modo, o sentimento da esfera deve pré-existir de alguma maneira ao ato de escrever o conto, como se o narrador, subentendido pela forma que assume, se movesse implicitamente nela e a levasse à sua extrema tensão, o que faz precisamente a perfeição da forma esférica (1993, p. 228).

 

Ainda no âmbito da definição de conto sob a ótica dos textos de Machado de Assis, Massaud Moisés afirma que a complexidade existente nesses textos do escritor carioca

 

[…] é uma fonte de prazer e de convite à reflexão que se renovam a cada momento. E não só: reserva surpresas como uma caixa de Pandora, usando uma imagem meio desgastada, mas que seria certamente agradável ao criador de Capitu (MOISÉS, 2001, p. 115).

 

Mais: a grande contribuição dos contos machadianos começa, segundo Moisés, na incomum capacidade de se ver o instante revelador das figuras em conflito no seu aspecto mais trágico ou dramático (2001, p. 119).

 

Machado vai diretamente ao ponto, não raro driblando as expectativas do leitor: por mais que este ponha a funcionar a sua imaginação, não consegue antever o desfecho da história. Mesmo nos contos que fluem naturalmente, como se fossem crônicas inspiradas no cotidiano banal, o desenlace é uma surpresa para o leitor. A necessidade da releitura pode ser a conseqüência imediata dessa brincadeira de esconde-esconde, como se o leitor, espicaçado, tivesse de voltar uma vez mais ao conto para surpreender os pormenores onde se ocultam as chaves que facultem prever o final. Um autêntico espetáculo hipnótico, vazado numa linguagem concisa, ática, com a falsa aparência de simplicidade, que somente os grandes contistas conseguem montar. Aí, em síntese, a maestria de Machado na arte do conto, e a sedução que exerce ainda hoje nos leitores, inclusive os mais exigentes (2001, p. 119).

 

Essa visão se enquadra bem nas pretensões desse artigo que é a de entender os processos alegóricos presentes no texto machadiano que permitam compreender como o autor viu a escravidão no Brasil. É importante recordar que Machado de Assis descendia de escravos[4], já que seu pai era um pintor mulato e sua mãe uma lavadeira de origem portuguesa.

De acordo com Antonio Candido, sob o autor de Dom Casmurro, que respeitava para ser respeitado,

 

[…] funcionava um escritor poderoso e atormentado que recobria os seus livros com a cutícula do respeito humano e das boas maneiras para poder, debaixo dela, desmascarar, investigar, experimentar, descobrir o mundo da alma, rir da sociedade, expor algumas das componentes mais esquisitas da personalidade. Na razão inversa da sua prosa elegante e discreta, do seu tom humorístico e ao mesmo tempo acadêmico, avultam para o leitor atento as mais desmedidas surpresas (SOUZA, 1995, p. 20-21).

 

Essas observações feitas por Antonio Candido se encaixam na proposta deste trabalho que é analisar como Machado de Assis leva para o interior do conto questões que diziam respeito ao dia a dia dos negros dentro da senzala e como existiam divergências entre eles por conta da diferenciação do local em que exerciam suas atividades cotidianas. Por exemplo, os escravos que atuavam dentro da casa-grande, pela proximidade com os seus proprietários, tinham condições de aprender um outro vocabulário, inclusive termos oriundos de outras línguas, como o francês. Há casos em que o cativo acabava por ser alfabetizado pelos próprios escravagistas para que, no futuro, pudessem ler para seus filhos ou servir de dama de companhia, pois possuía um pouco de conhecimento.

Em Esaú e Jacó (2001), Machado explora um desses aspectos quando Natividade, mãe dos gêmeos Pedro e Paulo, a exemplo do marido o banqueiro Santos, recebe o título de baronesa. O assunto é discutido entre os serviçais da casa e uma escrava deixa claro para seus interlocutores que o fato de pertencer a uma baronesa a faz diferente dos demais cativos que atuam em outras residências, cujos proprietários não possuíam títulos nobiliárquicos.

Já em Memórias Póstumas de Brás Cubas, através de um “defunto autor”[5], ele apontará mais característica peculiar do ser humano. O fato encontra-se no capítulo LXVII, intitulado “O Vergalho” e através dele, parece-me que Machado pôde fazer mais uma observação sobre a alma humana evidenciando que quando se está no degrau de cima se vilipendia o indivíduo que se encontra abaixo.

O capítulo começa com Brás afirmando que fazia algumas reflexões, quando foi interrompido por um ajuntamento de pessoas que assistia um negro que surrava um outro com uma barra de ferro.

 

[…] O outro não se atrevia a fugir; gemia somente estas únicas palavras: -‘Não, perdão’ meu senhor; meu senhor, perdão!’ Mas o primeiro não fazia caso, e a cada súplica, respondia com uma vergalhada nova.

– Toma diabo! Dizia ele; toma mais perdão, bêbado!

– Meu senhor! Gemia o outro.

– Cala a boca, besta! Replicava o vergalho.

Parei, olhei… Justos céus! Quem havia de ser o do vergalho? Nada menos que o meu moleque Prudêncio, – o que meu pai libertara alguns anos antes. Cheguei-me; ele deteve-se logo e pediu-me a bênção; perguntei-lhe se aquele preto era escravo dele.

– É, sim, nhonhô.

– Fez-te alguma coisa?

– É um vadio e um bêbado muito grande. Ainda hoje deixei ele na quitanda, enquanto eu ia lá embaixo na cidade, e ele deixou a quitanda para ir na venda beber.

– Está bom, perdoa-lhe, disse eu.

– Pois não, nhonhô. Nhonhô manda, não pede. Entra para casa, bêbado. (ASSIS, 1998, p. 100-101).

 

Após o diálogo com o ex-escravo, Brás Cubas vai embora e no trajeto busca as reflexões que ficaram para traz após se deparar com aquela cena e acaba concluindo que a atitude de Prudêncio era compreensível, pois o mesmo

 

[…] tinha de se desfazer das pancadas recebidas, – transmitindo-as a outro. Eu, criança, montava-o, punha-lhe um freio na boca, e desancava-o sem compaixão; ele gemia e sofria. Agora, porém, que era livre, dispunha de si mesmo, dos braços, das pernas, podia trabalhar, folgar, dormir, desagrilhoado da antiga condição, agora é que ele se desbancava: comprou um escravo, e ia-lhe pagando, com alto juro, as quantias que de mim recebera. Vejam as sutilizas do maroto! (1998, p. 101).

 

O capítulo inteiro por si só vale uma série de reflexões, mas Trípoli vai dizer que

 

Num primeiro momento, a cena parece denegrir o escravo, pois expõe a sua crueldade e a falta de consideração para com outro da própria raça. Entretanto, não nos esqueçamos do tom satírico do romance e atentemos para a reflexão que faz Brás Cubas enquanto se afasta da cena: ‘Vergalho recebido, vergalho transferido’, que é um confesso mea culpa da personagem, ao perceber que o ex-escravo, com o seu proceder, buscava compensar-se das pancadas que recebera no passado (TRÍPOLI, 2006, p. 107).

 

É importante observar que a ação de Prudêncio se encaixa bem na afirmação do historiador Rafael de Bivar Marquese sobre o processo de alforria dos cativos como mecanismo de reprodução da sociedade escravista e medida de segurança para

 

[…] evitar um quadro social tenso como o do Caribe inglês e francês ou mesmo o de Pernambuco no século XVII. A libertação gradativa dos descendentes dos africanos escravizados – não mais estrangeiros, mas sim brasileiros – constituiu o principal desses meios. A prova definitiva da validade dessa equação é a associação de negros e mulatos libertos e livres com o sistema escravista: o grande anseio econômico e social desses grupos era exatamente a aquisição de escravos, ou seja, torna-se senhor. Diversos trabalhos recentes documentam a prática bastante comum de negros e mulatos livres, libertos e mesmos escravos serem donos de escravos (MARQUESE, 2006, p. 118).

 

Mais adiante o historiador afirma que

 

O comprometimento social dos crioulos e mulatos – sobretudo quando livres e libertos – com a instituição da escravidão, e não apenas o comprometimento dos senhores brancos, foi o elemento decisivo que garantiu a segurança do sistema escravista brasileiro (2006, p. 121).

 

Será possível verificar, através de casos como os apresentados nessas obras, o homem Machado de Assis? Ou será que o autor dos três romances e do conto em análise tentava por meio dessas ferramentas narrativas desvencilhar-se de sua condição social e étnica? Parece-me que as respostas vão ao sentido contrário de suas supostas intenções, ou seja, o autor de “Memórias Póstumas de Brás Cubas” não tentava se desligar disso ou daquilo, mas sim descrever como era a alma humana. Independentemente de o indivíduo ser um serviçal, pertencer à camada dos homens livres ou escravagistas, a atitude seria a mesma, reservada a sua proporção.

Ainda sobre a questão do negro na sociedade brasileira, cabe acrescentar que Renato Ortiz em seu livro “Cultura brasileira e identidade nacional” (2005) fornece elementos que podem ser utilizados como mote para se entender a problemática do africano na sociedade escravocrata brasileira. Embora a discussão feita por ele diz respeito a um debate em torno da ideologia do ISEB, a sua afirmação é importante para as pretensões desse trabalho, pois diz que

 

[…] o negro para se constituir como pessoa tem que passar pela referencia ao homem branco. Como todo ser humano, o negro sente a necessidade de se ver reconhecido enquanto tal, mas este reconhecimento torna-se impossível numa sociedade onde existem senhores brancos e escravos negros. […] o negro não possui uma ´resistência ontológica’ diante do olhar do branco, pois ele só consegue se enxergar enquanto escravo, reflexo do dominador (ORTIZ, 2005, p. 57).

 

Voltando ao conto “Um apólogo”, a sua leitura pode transportar o leitor para um outro contexto, o presente, pois a história bem poderia se encaixar na atualidade, já que a sociedade brasileira, mais especificamente a classe média, que padece em virtude da perda de seu status[6], no passado não muito remoto, procurava se diferenciar dos integrantes das “camadas inferiores”, mesmo pertencendo à categoria dos vendedores da força de trabalho para sobreviverem.

Essa é uma outra discussão, já que esse trabalho pretende analisar o relacionamento entre os próprios negros dentro da senzala, portanto, é importante ressaltar que a leitura do texto pode também ser entendida como sendo a relação entre as pessoas que viviam de “favor” na propriedade do escravagista e os escravos. Neste sentido, a obra machadiana é repleta de exemplos, como em Helena[7], quando a protagonista é descoberta como não sendo filha legítima do conselheiro, prefere morrer a viver como agregada na casa de seu amado, agora ex-meio-irmão.

O romance começa leve e galhofeiro e acaba com a morte da protagonista, torturada por um amor que considerava sem esperança, demonstrando que a ideologia paternalista dos senhores e as relações de dependência provocam situações de violência e humilhação, restando aos dependentes – escravos e livres – apenas o agradecimento aos escravagistas, pois sabem que não há perspectivas e que serão sempre lembrados de sua situação de inferioridade social. O enredo de Helena reporta ao leitor a idéia de que há uma imbricação entre “liberdade” e escravidão em situação de dependência, demonstrando que existe uma e somente lógica hegemônica de reprodução das hierarquias e desigualdades sociais.

Ainda, no terceiro romance de Machado de Assis é possível encontrar a metaforização da dependência da protagonista quando a mesma dialoga com a égua Moema, que “não maldiz o cativeiro”, contudo parecia impaciente para correr pela estrada da Tijuca afora, sentindo-se alguma coisa senhora e livre. A aproximação entre escravidão e liberdade, para enfatizar a precariedade e os limites de qualquer experiência de liberdade em uma sociedade de cunho paternalista, organizada em torno da reprodução dos laços de dependência pessoal, politiza eficazmente o drama do processo de emancipação dos escravos, então em evidência. Escravidão e paternalismo, cativeiro e dependência pessoal, pareciam duas faces da mesma moeda (CHALHOUB, 2000, p. 134-135).

Já em “Um apólogo”, Machado de Assis retratará, segundo a interpretação alegórica, questões relativas à maneira como os escravos se comportavam entre si. Portanto, pode-se especular que, a partir dessa perspectiva, o texto é um olhar machadiano saindo da senzala para a sociedade brasileira. Por isso, acredito que seja possível adiantar que o recurso alegórico é uma ferramenta que o autor utilizou para demonstrar essa visão de forma sutil. Para entender as propostas do escritor carioca nesse conto, faz-se necessário iniciar pelo título da obra, que segundo Massoud Moisés, seria uma

 

[…] narrativa curta, não raro identificada com a fábula e a parábola, graças à moral, explicita, que deve encerrar, e à estrutura dramática sobre que se fundamenta. Contudo, há quem distinga pelas personagens: o apólogo seria protagonizado por objetos inanimados (plantas, pedras, rios, relógios, moedas, estátuas, etc.), ao passo que a fábula conteria de preferência animais irracionais, e a parábola, seres humanos (MOISÉS, 2004, p. 34).

 

Ou seja, ao nomear o seu texto, Machado já estaria fazendo uso do discurso alegórico e, diante dele, o leitor teria uma

 

[…] dupla opção: analisar os procedimentos formais que produzem a significação figurada, lendo-a apenas como convenção lingüística que ornamenta um discurso próprio ou analisar a significação figurada nela pesquisando seu sentido primeiro, tido como preexistente nas coisas, nos lugares e nos acontecimentos e, assim, revelados na alegoria. Pensada como dispositivo retórico para a expressão, a alegoria faz parte de um conjunto de preceitos técnicos que regulamentam as ocasiões em que o discurso pode ser ornamentado (HANSEN, 2006, p. 9).

 

Mais:

 

[…] a alegoria é teorizada como forma racionalista, artificial, mecânica, árida e fria. Retoricamente, a alegoria diz b para significar a, […], observando-se que os dois níveis (designação concretizante b e significação abstrata a) são mantidos em correlação virtualmente aberta, que admite a inclusão de novos significados. Além disso, a alegoria pode funcionar por mera transposição: o significado da designação b pode ser totalmente independente do significado da abstração a […] (2006, p. 15 e 17).

 

Na tentativa de melhor definir o que vem a ser alegoria, Hansen afirma que

 

[…] a alegorização funciona como uma metalinguagem; ela é uma glosa que se integra ao texto, existindo apenas nele, em sua literalidade. Pensá-lo assim implica ler a alegoria como convenção para o leitor (2006, p. 42).

 

Portanto, pode-se dizer que o texto machadiano que está sendo analisado é alegórico, sendo que o discurso pode ser compreendido aqui como sendo “uma representação concreta de uma idéia abstrata” (KOTHE, 1986, p. 90). Ou seja, a utilização de um recurso figurativo para se atingir um fim específico, mas que não pode ser apresentado de maneira direta.

Dito de outra forma: alegoria é

 

[…] exposição de um pensamento sob forma figurada em que se representa algo para indicar outra coisa. Subjacente ao seu nível majestoso, comporta um outro conteúdo. É uma metáfora continuada, como tropo de pensamento, consistindo na substituição do pensamento em causa por outro, ligado ao primeiro por uma relação de semelhança (1986, p. 90).

 

Massaud Moisés vai dizer que

 

[…] alegoria é uma figura de expressão que consiste “numa proposição de duplo sentido literal e um sentido espiritual, por meio do qual se apresenta um pensamento sob a imagem de um outro, destinado a torná-lo mais sensível e mais surpreendente do que se fosse apresentado diretamente e sem nenhuma espécie de véu” (MOISÉS, 2004, p. 15).

 

Ele explica que, como a narrativa é o expediente mais adequado à concretização do mundo abstrato, a aplicação do processo alegórico somente pode ocorrer por intermédio de um enredo (2004, p. 16), como no texto machadiano que está sendo analisado.

Moisés diz que o conceito alegórico pode ser divido em duas partes:

 

[…] alegoria perfeita (tota allegoria), quando não se notam traços do pensamento implícito; e a imperfeita (permixta apertis allegoria ou allegoria imperfecta), quando se encontram pistas do pensamento oculto. No primeiro caso, por ser ‘uma alegoria não-irônica, cujo nexo com a idéia séria em questão é particularmente opaco’, pode tornar-se obscura, gerando o enigma (2004, p. 15 – grifos do original).

 

Para que meu objetivo seja alcançado nesse texto, qual seja, entender como Machado explica no conto “Um apólogo” as divergências entre os escravos, a segunda parte da definição dada por Moisés será utilizada na avaliação do texto. Contudo, é em Hansen que encontro esmiuçada a explicação de alegoria imperfeita.

Segundo ele, pelo menos nessa divisão uma parte do enunciado se encontra lexicamente no nível do sentido próprio e a mistura do figurado e do próprio fica a serviço da clareza e, por isso, é tida como mais didática (HANSEN, 2006, p. 66).

 

Observa-se que o atributo ‘imperfeita’ não se refere a uma forma defeituosa ou ao mau funcionamento, mas ao grau de abertura da significação, quando comparada com o enigma ou tota allegoria. Por isso, a alegoria imperfeita é recomendável, segundo a Retórica antiga. […] Para ser entendida mais fácil, a permixta apertis allegoria muitas vezes se chama parábola, como as do Novo Testamento. Outra forma típica é a fábula, por vezes o apólogo. Na fábula, é alegórica a estória [sic] que envolve animais; o sentido próprio lê-se como moral da estória [sic]. (2006, p. 66 – grifos do original).

 

Hansen completa informando que

 

[…] os lugares-comuns alegóricos são compostos, em sua maioria, de alegorias imperfeitas, tanto em sua formulação quanto em sua repetição e transformação. Lembram-se uma vez mais as ‘virtudes’ retóricas necessárias: clareza, brevidade, verossimilhança (2006, p. 66-67).

 

Essas três categorias “são também convenções de uma norma que se poderia chamar de ideal” (2006, p. 45), através da qual, o discurso subordina-se, embora sejam funções uma da outra, é possível afirmar

 

[…] que brevidade e clareza discursivas visam tornar o discurso verossímil, sendo antes meios técnicos que propriamente fins. O objetivo é, sempre, a boa mimese. A regra da clareza, já se escreveu, é mesmo o critério central da classificação retórica dos tipos de alegoria. É ela também que determina os graus de maior ou menor aceitabilidade nas operações de abstração seletiva das matérias do discurso, da combinação ou associação das suas partes, da ampliação ou engrandecimento de ações e objetos e, enfim, da metamorfose ou produção de efeitos de “maravilhoso” (HANSEN, 2006, p. 44).

 

Por considerar esses três elementos fundamentais para entender o processo alegórico presente no conto machadiano em que, parece-me, ficar claro que o autor pretende demonstrar que havia no interior da senzala uma diferenciação entre os negros que trabalhavam na casa-grande e aqueles que as atividades eram realizadas na lavoura, entendo ser necessário aqui se ater um pouco mais nessa trina categoria.

 

Transpostas para a produção poética, brevidade e clareza geralmente visam evitar hibridismos que infringem a preceptiva de sua pureza estilística repartida em gêneros. Nesse sentido, brevidade e clareza são determinadas pela propriedade ou, em outros termos, pela conveniência e adequação do discurso às tópicas e ao gênero (2006, p. 46-47).

 

Quanto ao verossímil, Hansen explica que pelo sistema de convenções, o mesmo é possível através de um

 

[…] efeito mimético obtido à custa de vários procedimentos técnicos. Tais procedimentos, entre outros fins, conduzem toda a variedade da invenção, da disposição e da elocução a uma forma feita segundo aos preceitos de um gênero, submetendo-se ao juízo da recepção. Para tanto, no ato de compor, excluem-se procedimentos que seriam válidos em outra situação, aparam-se expressões inconvenientes, cortam-se ou podam-se termos apropriados somente em outro contexto verbal. A finalidade é produzir persuasão, que induz à crença e à ação […] (2006, p. 47).

 

Feitas essas observações sobre a conceituação do que vem a ser alegoria e de como vou utilizá-la para interpretar o conto “Um apólogo”, parte-se agora para ver como o processo de fato acontece no texto machadiano.

O conto começa “Era uma vez […]”, expressão que remete o leitor a uma intemporalidade e a certeza de que os fatos não são relativos ao mundo concreto. Em seguida, o narrador, na terceira pessoa, nomeia as personagens do enredo: uma agulha e um novelo de linha, ou seja, seres inanimados, o que já os identificam com o sentido do título, que diz tratar-se uma história protagonizada por objetos sem vida.

O enredo machadiano está estruturado de maneira binária, ou seja, um novelo de linha e uma agulha, que dialogam sobre a hipótese da existência social de um e ausência no interlocutor dessa experiência. Contudo, como são binárias, uma precisa da outra para existir na roupa da ama que vai aos saraus e festas na corte. Dito de outra forma, quando uma existe a outra desaparece justamente para que possa surgir novamente quando a anterior fica no limbo.

Transportando essa interpretação para o propósito desse artigo, convém dizer que, embora pudesse haver uma diferenciação entre os negros que atuavam na lavoura e os que prestavam serviços no interior das residências, ambos tinham a sua importância para a sociedade escravocrata da época. No caso dos escravos que passavam o dia no interior da casa-grande, os mesmos tinham que acompanhar seus senhores e filhos nas cerimônias públicas, sejam elas na corte ou mesmo dentro do imóvel onde residiam seus proprietários, o que lhes permitiam gozar de certo status perante os africanos que ficam na lavoura, pois esses tinham uma existência simplificada, já que, ou estavam no roçado ou na senzala. Todavia, a atividade na lavoura, mesmo que brutalizada pelos maus tratos, tinha sua importância para a sociedade da época, contudo, para os próprios negros havia uma diferenciação, e é justamente isso, parece-me, que Machado de Assis quis demonstrar a partir do conto “Um apólogo”, usando o recurso do discurso alegórico.

No primeiro diálogo entre os dois objetos-personagens isso fica evidente.

 

– Por que está você com esse ar, toda cheia de si, toda enrolada, para fingir que vale alguma coisa neste mundo?

– Deixe-me, senhora.

-Que deixe? Que a deixe, por quê? Porque lhe digo que está com um ar insuportável? Repito que sim, e falarei sempre que me der na cabeça.

-Que cabeça senhora? A senhora não é alfinete, é agulha. Agulha não tem cabeça. Que lhe importa o meu ar? Cada qual tem o ar que Deus lhe deu. Importe-se com sua vida e deixe a dos outros (ASSIS, 2004, p. 110).

 

Nesse trecho pode se aferir várias interpretações, como o fato dos negros não serem considerados humanos e descerebrados e sim “bestas” e burros[8] que tinham como finalidade servir aos seus senhores até a exaustão física. Há ainda a interpelação feita pela agulha sobre a suposta arrogância da linha, em que Machado de Assis, encoberto pelo narrador, sugere que esta era motivada pelo fato de que ela é que acompanhava a senhora nos bailes e festas da corte, como por exemplo, o baile da Ilha Fiscal retratado por Machado de Assis em Esaú e Jacó. Isso ocorria porque a função da linha era justamente juntar as partes do tecido que dariam formato, corpo, à roupa.

A “linha”, entenda-se “negra” que acompanha as senhoras escravagistas nos eventos sociais, responde que cada um tem a vida dada por Deus e ela foi agraciada, mesmo sendo escrava, tinha uma vida social diferente dos demais cativos com quem habitava a senzala.

Mais adiante, há um embate entre as duas protagonistas que bem pode ter ocorrido no interior da moradia dos negros, pois os escravos da lavoura queriam deixar claro que suas atividades eram mais importantes do que o trabalho no interior da casa-grande.

 

– […] os vestidos e enfeites da nossa ama, quem é que os cose, senão eu?

– Você? Essa agora é melhor. Você é que os cose? Você ignora que quem os cose sou eu, e muito eu?

– Você fura o pano e nada mais; eu é que coso, prendo um pedaço ao outro, dou feição aos babados … (2004, p. 110).

 

A agulha vai dizer ainda que é ela quem fura o pano, indo adiante puxando a linha, que por sua vez, vai atrás obedecendo as suas ordens. Pode-se especular aqui que os negros que desempenhavam suas funções na lavoura tentavam afirmar que sem o trabalho pesado que realizavam não haveria riqueza para os senhores e, por conseguinte as festas aonde a “linha”, “escrava da casa-grande”, ia, também não existiriam.

A “linha” argumenta que os “batedores vão adiante do imperador” e que a agulha teria a mesma função subalterna, pois iria somente mostrando o caminho, fazendo o trabalho obscuro e ínfimo. Ao contrário dela, que prenderia, ligaria e ajuntaria um tecido ao outro (2004, p. 110-111).

No parágrafo seguinte, o narrador machadiano evidencia que o diálogo se passa na residência de uma baronesa e que a modelista acabara de chegar. Pelo fato do enunciado retratar a época escravocrata, pois o título nobiliárquico era relativo ao período monárquico e com o fim do trabalho servil em seguida o trono ruiu, pode se especular que essa mulher poderia ser uma estrangeira ou oriunda das camadas dos homens livres, isto é, pertencendo à categoria dos agregados que vivia dos “favores” dos senhores escravagistas. Essas pessoas foram retratadas na maioria das obras machadianas, seja nos romances, nos contos ou nas crônicas.

Sobre o agregado, o crítico literário e ensaísta Roberto Schwarz, em entrevista concedida ao jornal Folha de São Paulo, vai dizer que

 

No mundo rural, a sua figura elementar era o morador vivendo de favor na terra de um proprietário, a quem devia gratidão e contraprestações, e de quem não recebia salário, no máximo alguns cobres. No mundo urbano, extensão do rural, essa relação se entrelaçou com a civilização moderna, diversificando-se notavelmente, mas conservando o traço básico. Persistiam o paternalismo, a patronagem, o clientelismo, o apadrinhamento, o filhotismo, o personalismo etc. – cuja verdade, no pólo fraco da relação, eram a dependência pessoal e a falta de garantias (Schwarz, 2007, p. 8).

 

Ainda na mesma entrevista, Schwarz afirma que o que tornava perversa essa relação de “favor” no século XIX era algo particular.

 

Como o essencial do serviço era feito por escravos, o mercado de trabalho era incipiente, obrigando os homens pobres a buscar a proteção de um proprietário para tocar a vida. O proprietário, por seu lado, ficava à vontade para favorecê-los, como um senhor personalista, à antiga, a que é devida gratidão, ou para desconhecê-los, como um cidadão moderno, que não está nem aí, ou melhor, que não deve nada a ninguém. Essa assimetria vertiginosa entre as classes, em que, dependendo do capricho dos ricos, os pobres podiam ser favorecidos ou resvalar para o nada, de fato tornava a relação de favor iníqua. Tratava-se de uma perversão estrutural, que Machado explorou como ninguém (Id., Ibid).

 

Voltando ao escopo desse artigo, é importante ressaltar que, embora os negros que viviam na senzala pudessem debater sobre quem tinha melhor status entre eles, discussão personificada no diálogo entre a agulha e a linha, a figura da costureira no conto, evidencia que ela, enquanto agregada, é que conduzia tanto a linha quanto a agulha, ou seja, os serviçais e o trabalho dentro da casa-grande e com extensão à senzala, portanto, também quem é que acompanharia os escravagistas e seus filhos nas festas e outros eventos sociais.

Diz o texto que ambas as personagens estavam no embate,

 

[…] quando a costureira chegou à casa da baronesa. Não sei se disse que isto se passava na casa de uma baronesa[9], que tinha a modista ao pé de si, para não muito andar atrás dela. Chegou a costureira, pegou do pano, pegou da agulha, pegou da linha, enfiou a linha na agulha, e entrou a coser. Uma e outra iam andando orgulhosas, pelo pano adiante, que era a melhor das sedas, entre os dedos da costureira, ágeis como os galgos de Diana – para dar a isto uma cor poética […] (2004, p. 111).

 

O trabalho da modista, segundo o narrador, durou quatro dias, ficando o vestido a espera da grande noite e quando ela chegou,

 

[…] a linha, para mofar da agulha perguntou-lhe:

– Ora, agora, diga-me, quem é que vai ao baile, no corpo da baronesa, fazendo parte do vestido e da elegância? Quem é que vai dançar com ministros e diplomatas, enquanto você volta para a caixinha da costureira, antes de ir para o balaio das mucamas? Vamos, diga lá. (Id, Ibid).

 

Em seguida, o enunciador diz que teve a impressão de que a linha não disse nada, porém,

 

[…] um alfinete, de cabeça grande e não menor experiência, murmurou à pobre agulha: – Anda, aprende, tola. Cansas-te em abrir caminho para ela e ela é que vai gozar da vida, enquanto aí ficas na caixinha de costura. Faze como eu, que não abro caminho para ninguém. Onde me espeto fico. (Id, Ibid).

 

Enfim, com esse desfecho, “a moral da história”, uma vez que o conto começa com o conhecido dito: “Era uma vez […]”, é a de que o negro da lavoura, por mais que trabalhe e tente ver a sua importância na economia escravista, como forma de consolo para a sua situação, conforme argumenta Sidney Chalhoub em uma interpretação de Helena, sempre voltaria à noite para a miséria da senzala enquanto o negro da casa-grande pode, mesmo que na condição de escravo, assistir e participar de bailes, saraus, o que os diferencia dos demais no interior das moradias insalubres.

Parece-me que a proposta de Machado de Assis em “Um apólogo” não era narrar a história dos negros dentro da senzala[10], mas tão somente utilizar-se deste aspecto peculiar por intermédio do processo alegórico, sugerir que havia no interior da moradia dos cativos, disputas entre os negros quando o assunto era status.

Por outro lado, deixando a questão escravista e adentrando no aspecto mais geral, já que Machado de Assis aborda também algumas características, que segundo suas observações, são imanentes à alma humana, pode-se dizer que o ser humano, independente da condição social em que se encontra, seja ela de homem livre, agregado, cativo, senhor de escravo, capitalista, sempre irá tripudiar sobre o outro “seu igual” se estiver em uma situação diferente e que seja, mesmo que aparentemente, superior.

 

 

BIBLIOGRAFIA

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  23. TRÍPOLI, Mailde Jerônimo. Imagens, máscaras e mitos: o negro na obra de Machado de Assis. Campinas, SP: Editora da UNICAMP, 2006.
  24. VILA NOVA, Sebastião. Introdução à Sociologia. São Paulo: Atlas, 2000.

 

[1] – Licenciado, Bacharel  e mestrando em Ciências Sociais – Unesp.

[2] – “Mucama, como se sabe, era um tipo de escrava doméstica, normalmente encarregada de fazer companhia para a senhora ou sua filha, a sinhazinha, às quais ajudava na hora do banho, no vestir e no pentear. Muitas vezes, tornava-se confidente leal e amiga. Geralmente, não fazia trabalhos pesados, não ia para o eito, vivia na casa grande (sic). Com um pouco de sorte e empenho, aprendia a ler, escrever, bordar, costurar e outros dotes. Na literatura, a mucama foi tema para muitos escritores e poetas, ao tratarem da escravidão. Ora são apresentadas como boas, leais e sensíveis, ora são vítimas do ciúme e ingratidão das senhoras; em outras vezes, o enfoque é o seu papel sedutor, inspirando desejo e volúpia nos senhores que as assediavam e se julgavam com o direito de serem atendidos, posto que eram propriedades suas. Outras vezes, são más, ambiciosas, astutas, sedutoras e amorais […]” (TRÍPOLI, 2006:59).

[3] – Esse tipo de atividade realizada pelos escravos é retratado em várias obras de Machado de Assis, como por exemplo, em Helena (1981) e Memórias Póstumas de Brás Cubas (1998).

Segundo o historiador Sidney Chalhoub, em Helena – terceiro romance da assim chamada primeira fase machadiana e publicado pela primeira vez em 1876 -, é possível encontrar passagens em que fica evidente a visão do autor sobre a escravidão. “Em Helena, quase tudo o que se diz sobre a instituição da escravidão, está contido nos movimentos de Vicente, o pajem da protagonista. Em sua primeira aparição, Vicente é descrito como ‘cria da casa e particularmente estimado pelo conselheiro’ […]. Tal descrição do cativo tem objetivo bem definido: como pautavam seus sentimentos pelos de d. Úrsula, os escravos da família ficaram totalmente insatisfeitos com a chegada de Helena; Vicente, no entanto, pelo fato de haver sido estimado pelo conselheiro, aceitou logo aquela que se lhe apresentava como filha do finado senhor e se tornou então ‘um fiel servidor de Helena, seu advogado convicto nos julgamentos da senzala’ […]. O comentário mais crucial da passagem, todavia, é o de que a dedicação de Vicente à rapariga era ‘despida de interesse, porque a esperança de liberdade, se a podia haver, era precária e remota’ […]. A necessidade de mencionar a esperança da alforria – ou até de justificar a sua possível ausência – num contexto em que se procurava enfatizar a dedicação de um escravo é bastante reveladora […]”, mesmo porque, “[…] cada escravo sabia bem que, excluídas as fugas e outras formas radicais de negação do cativeiro, sua esperança de liberdade dependia do tipo de relacionamento que mantivesse com o seu senhor particular. A idéia era convencer os escravos de que suas chances de alforria passavam necessariamente pela obediência e fidelidade em relação aos proprietários. Além disso, conforme o exemplo notável do africano Raimundo em Iaiá Garcia, a concentração do poder de alforriar exclusivamente nas mãos dos senhores fazia parte de uma ampla estratégia de produção de dependentes, de transformação de ex-escravos em negros libertos ainda fiéis e submissos a seus antigos proprietários” (CHALHOUB, 2003:50-51).

[4] – Esse pertencimento étnico e social do criador de personagens como Bentinho, Escobar, Quincas Borba, valeu-lhe um grande embate com Silvio Romero. Para entender esse entrevero ver o texto do sociólogo Richard Miskolci, “Machado de Assis, o outsider estabelecido” (2006) e o próprio livro de Romero: “Machado de Assis” (1992).

[5] – “A partir do ponto de vista do narrador externo, Memórias póstumas de Brás Cubas é um romance ousadamente inverossímil. Além de ser um morto que escreve, ele mantém uma atitude de intrometido e inconveniente, chegando mesmo a ser agressivo em alguns momentos. Essa atitude, entretanto, viabiliza uma crítica direta, sem confrontos, à classe social dominante e sua pretensa ‘superioridade natural’. Se Brás Cubas, quando estava vivo, era dominado e submisso às normas e convenções de seu meio social, morto ele anuncia: ‘Agora, porém, que estou cá do outro lado da vida, posso confessar tudo’. O que ele faz é um jogo de construção e linguagem: o discurso se dá de um ponto de vista de fora da história, enquanto a ação do seu eu/outro, o personagem, ocorre de outro ponto, dentro da sociedade e da história. Cabe ao leitor observar e perceber o viés do narrado e do exposto, pois essa é mais uma das artes de Machado, nesse romance: mostrar e narrar a um só tempo” (TRÍPOLI, 2006:101-102).

 

[6] – “Toda sociedade compreende um sistema de status ou posições. Status é a localização do indivíduo na hierarquia social, de acordo com a sua participação na distribuição desigual da riqueza, do prestígio e do poder. […] É próprio da condição social do homem ocupar posições com direitos e deveres preestabelecidos independentemente dos indivíduos. Onde quer que esteja o indivíduo na sociedade, ele estará ocupando alguma posição” (VILA NOVA, 2000, p. 107).

[7] – No livro “Ao vencedor as batatas”, que enfoca os primeiros quatro romances de Machado de Assis, além do ensaio “As idéias fora do lugar”, o crítico literário Roberto Schwarz diz que “Helena”, é uma obra mais idealizada do que a anterior, “A mão e a luva”, na qual o autor seria menos otimista, demonstrando que a cooptação das pessoas que vem dos estratos inferiores estará vista na perspectiva da suscetibilidade. Mais: em Helena, Machado tenta contribuir para o aperfeiçoamento do paternalismo, contudo, a paisagem social é a mesma do livro anterior: as boas famílias, a riqueza e a influência política opõem-se ao mundo errático e obscuro dos pobres (SCHWARZ, 2000:115, 117).

[8] – Em uma crônica publicada no dia 16 de outubro de 1892, que faz parte da série “A Semana”, Machado de Assis, dá voz a dois burros que dialogam sobre as conseqüências da libertação dos escravos ocorrida no dia 13 de maio de 1888. O texto evidencia que, os dois animais são alegoricamente comparados a dois escravos, que falam sobre o que lhe reserva o futuro como homens livres (MACHADO DE ASSIS, 1996:135-138).

[9] – Neste trecho fica evidente que Machado de Assis utiliza-se do recurso da metaficção, pois o narrador tem noção do leitor e o chama para participar da história, mesmo como espectador. O conceito de metaficção é utilizado aqui é o definido por Massaud Moisés: “Ao longo de um romance ou uma novela, o narrador reflete acerca do escreve, dividindo com o leitor as certezas e as perplexidades que o transcorrer dos acontecimentos e a articulação mais adequadas das unidades narrativas lhe sugerem. […] ‘É a ficção que pensa a si própria dentro do texto em que se desenvolve, obedecendo a um impulso de autodesenvolvimento, como se o autor, desdobrado num ‘outro’, se espionasse no ato de construir o edifício narrativo, cujos antecedentes podem remontar a Cervantes e o Dom Quixote. No século XVIII, com Sterne e o Tristan Shandy, o seu processo de maturação alcança o momento mais significativo, quando a narrativa ‘se torna geralmente autocentrada, como se buscasse o princípio da sua inteligibilidade no seu próprio desenvolvimento e abandonasse mais e mais o espaço convencional da representação’” (MOISÉS, 2004:281).

[10] -Segundo Aristóteles, o escritor conta, em sua obra, não o que aconteceu e sim as coisas quais poderiam vir a acontecer, e que sejam possíveis tanto da perspectiva da verossimilhança como da necessidade. Neste aspecto, o mesmo se diferencia do historiador, pois um relata os acontecimentos que de fato sucederam, enquanto o outro fala das coisas que poderiam suceder. (ARISTÓTELES, 1999:47).

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